Algumas reflexões sobre revelação geral

Porventura há, entre as vaidades dos gentios, alguém que faça chover? Ou podem os céus dar chuvas? Não és tu, ó Senhor nosso Deus? Portanto em ti esperamos, pois tu fazes todas estas coisas.

Jeremias 14:22

A coluna de hoje é bastante simples, sem muitos detalhes científicos. Apenas gostaria de compartilhar contigo algumas poucas reflexões. Não será algo do tipo “Retrospectiva 2020” e nem “Melhores momentos 2020”; será algo muito mais simples do que isso e, claro, está relacionado com CosmoTeo: Cosmologia e Teologia no mesmo universo. O que contarei hoje será algumas ideias, nada de pretensioso, sobre a atuação de Deus no universo. A inspiração disso advém, por exemplo, da última série especial de Natal, mas não será, especificamente, sobre essa temática.

Como estamos praticamente no encerramento desse duro ano, nossa mente pode percorrer caminhos muito obscuros, do ponto de vista bíblico; e com boas razões humanas. Começamos o ano como em todos os anos: muitos sonhos, planejamentos, agenda cheia, milhares de trabalhos (sim! Eu estava exatamente nessa posição!). No começo, a percepção que tínhamos é que quase estouraria uma 3ª guerra mundial. Depois, uma bagunça desenfreada de governos, uns querendo interferir nos outros, uma doença nova (inicialmente, sem tratamento e sem cura), cientistas aproveitadores espalhando suas cosmovisões como se a ciência fosse a última palavra salvadora do apocalipse (não é o final, da nossa série) e desinformação científica pra todo lado (sempre existiu, mas ficou mais latente devido ao olhar de todos para a área da saúde). Final das contas, o que poderíamos pensar, depois de nossas mentes estarem afetadas com algumas mídias e “cientistas terroristas”: Deus foi embora e estamos fritos! Mas, calma, não é disso que falarei hoje: o Criador, que poderíamos achar que foi embora, não foi e nem nos esqueceu.

É claro que com um ano desses que tivemos e com toda a tecnologia e ciência que achamos que temos, foi um abalo de estruturas. Só que quero que você pare para pensar um pouco em tudo o que conversamos no CosmoTeo até agora (com essa, 49 colunas!): diversos fenômenos físicos, a maioria (ou praticamente todos) puxados para as maiores estruturas existentes (cosmologia = universo) e todos eles com fundamentos ou propósitos em Deus. Vamos por partes.

Começando com Gênesis, vemos que Deus criou todas as coisas para a Sua glória. É obvio e bem notável que o texto entre os capítulos 1 e 11 não são narrativos históricos, ou seja, não tem por objetivo ou gêneros literários descritivos como um livro de história ou um jornal descrevendo uma cena. Isso é claro de se observar se você ler apenas o capítulo 1, a semana da criação: lá não descreve Big Bang (“Haja luz; e houve luz.” não tem nada a ver com nascimento de universo), não narra a formação da Terra, não diz como o Sol / Lua foram criados (verso 16 é uma alusão a mítica cananéia, e não uma narrativa de criação científica astronômica) e muito menos fala sobre a origem da vida (água e terra, versos 20 e 24 não produzem vida). Em outras palavras: o texto da semana da criação não é uma narrativa histórica, mas coloca sentido em toda a criação, e já coloca o responsável de toda a natureza anterior a toda existência.

Só aqui já teríamos muito tempo de conversa (e ainda teremos! Aguarde!). Como resumo: Deus criou todas as coisas utilizando métodos, leis e ferramentas que Ele também criou. Pare para pensar nisso por um instante: antes do universo existir, o que se tinha era o nada absoluto (o nada físico, vácuo verdadeiro e vácuo falso, é outra história para cosmologia quântica). Então, Deus, em Sua eternidade (não faz sentido falar de tempo antes do universo e isso é assunto para outra conversa em termodinâmica), resolve criar leis físicas. Algumas dessas leis descobrimos, outras a gente não sabe, e outras, talvez, jamais saberemos. “Depois” (veja que não há tempo ainda), o Criador coloca o seu plano de criação em ação, ou seja, usa as leis físicas para criar o universo: ele nasce de um ponto infinitesimal (o menor que você puder imaginar; ainda é menor que isso), com toda a matéria (luz, estrelas, galáxias, poeira, planetas, eu, você e todo mundo) concentrada nesse ponto de tamanho zero. É isso mesmo: o universo nasce com toda a matéria em um volume que não tem tamanho. Não consegue imaginar isso? Nem eu: se chama singularidade.

Depois do nascimento do universo as coisas começam a andar: o restante do assunto será tema para a série que introduzimos sobre cosmologia. Avançando no tempo cerca de 13,82 bilhões de anos depois do nascer do universo, chegamos a Terra. E, já que Deus criou tudo, inclusive as leis físicas que regem até a vida, para Ele seria “mais fácil” deixar a vida correr livre-leve-solta: só que estaríamos no deísmo, e não no teísmo. A diferença é que no primeiro, a divindade coloca as coisas para funcionar e “vai embora”; no último, Deus age na sua criação sem violar suas leis e Seus propósitos.

Ou seja, o que poderíamos pensar que aconteceu (ou ainda está acontecendo) conosco é uma espécie de deísmo. E, como cristão teísta (veja a minha posição aqui e aqui), acredito que Deus age, mesmo quando não entendo ou não vejo a partir da minha posição humana. Isso pode até ser angustiante, mas a história cósmica sempre me aponta para evidências diretas de atuação dEle na natureza. E o texto bíblico está recheado de exemplos.

Um deles é o clássico evento do Sol e Lua em Josué: é muita coincidência acontecer tal evento naquele local e naquele instante. Outro (ou outros) é no instante do nascimento de Cristo: como é que alguns magos, de outro país, que não tem nada a ver com a cultura judaica, batem exatamente na região onde iria nascer o rei dos judeus? E, não eram só os magos que tinham essa mentalidade ao verem evento(s) cósmico(s): o rei Herodes e todos os líderes da Judéia, como Mateus nos informa no verso 3 do capítulo 2, ficaram perturbados; é óbvio que eles conheciam os sinais dos céus.

Um parêntese antes de continuar apenas para amarrar 2 elos: revelação geral é a forma como Deus se manifesta para todo ser humano, independentemente de sua crença nEle. Ou seja, olhando apenas para a criação, qualquer ser humano é capaz de ver, na natureza, que ela tem um criador e que esse criador está fora do espaço, do tempo e não é feito de matéria (não tem nada a ver com multiverso). Isso, qualquer pessoa, apenas utilizando-se da cosmologia e sabendo dos limites da ciência, consegue chegar até esse ponto. O que é / quem é esse criador, suas características pessoais ou quaisquer outros detalhes, precisará ir para a revelação especial (a Bíblia) para entender mais; nesse ponto entra em operação o Espírito Santo.

Voltando para a criação, mais especificamente no verso 16 do capítulo 1 de Gênesis. Lá diz que Deus criou as estrelas apenas no 4º dia. Para os povos ao redor de Israel, que chamamos de povos do Antigo Oriente Próximo (AOP ou Ancient Near East, em inglês), a astrologia (o guiar da vida através dos astros celestes) era extremamente importante: na realidade, os deuses eram os astros (Sol, chuva, terra, planetas etc). Só que, na apologética da criação em Gênesis, Deus está se revelando como criador, respondendo a todas as outras culturas que existe apenas um único criador de tudo e que não tem nada a ver, em essência, com a criação. E, para demonstrar a importância que a astrologia tinha, Ele “se esqueceu” de criar os astros no primeiro dia e só “se lembrou” no 4º dia.

Agora, relembre do caso de Josué (Sol e Lua), do nascimento (Estrela de Belém) e da morte (terremoto e trevas por algum tempo) de Jesus. O que poderíamos pensar sobre isso, já que astrologia não é nem ciência e nem nos guia para algo? E se, esses sinais astronômicos e geofísicos (apenas nesses 3 exemplos), fossem uma espécie de contato de Deus com o homem e que esse homem, em sua limitação, lesse através da astrologia ou qualquer outra coisa? Um exemplo de ferramenta de leitura da vontade de Deus é o Urim e o Tumim (Êx 28:30). Calma, vou mais devagar e explicarei um pouco mais esses detalhes.

Um passo atrás. Sempre que lemos a Bíblia observamos a ação de Deus e a chamamos de providência: “Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (Gn 22:8), “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6:33), Elias e a viúva de Sarepta… poderia fazer uma lista interminável de casos. Se a gente for para a história, o número de casos providenciais de Deus tende ao infinito. Mas, podemos sintetizar todos esses casos como ação de Deus: alguns, milagres; outros, ação “indireta”. O que não temos dúvida é que o Criador intervém na natureza, seja onde for e da forma como achamos que entendemos.

Faça a ligação entre a criação de Deus lá no início do universo e a Sua atuação na natureza hoje. Tem diferença? As duas: são intervenções, cumprem os propósitos do Criador, são executadas à risca e nenhuma delas sai do controle de Suas mãos (se a gente vai entender, compreender ou aceitar, o departamento dessa discussão é outro). Para exemplificar: criação ex nihilo (do nada absoluto) do universo (para os físicos: no “tempo” anterior à singularidade e ao tunelamento quântico cosmológico; explicarei isso futuramente) e Estrela de Belém. O primeiro exemplo, não temos a menor ideia de como Deus fez e, cientificamente falando, jamais saberemos: no máximo, saberemos o processo de início de nascimento do universo. O outro, por um instante, vamos considerar que dentro de todas as opções, sabemos exatamente qual foi o fenômeno astronômico que aconteceu na época do nascimento de Cristo.

Qual a diferença entre esses dois exemplos? Um não sabemos explicar e o outro (considere como sim), sabemos todos os detalhes do fenômeno. Qual dos dois Deus teve que trabalhar mais ou menos? É uma pergunta sem sentido: os dois foram atuações diretas do Criador na natureza. Só que em um, não compreendemos; o outro, entendemos perfeitamente. Mas, na nossa mentalidade, chamamos o primeiro de “milagre sobrenatural” (ou qualquer coisa do tipo) e o segundo, nem nos importamos muito: afinal, “os cientistas já sabem o que aconteceu”. Esse tipo de pensamento, de explicar tudo pela ciência, pode dar lugar para aquilo que chamamos de “Deus das lacunas”: enquanto não sei explicar, foi Deus que fez; quando explico de forma “natural”, Deus vai sendo descartado. Isso é um pensamento ateísta e/ou deísta com intuito de minimizar ou até zerar a atuação divina. Mas tudo é criado, feito, guiado e controlado por Deus.

Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.

Colossenses 1:16

Essa ideia de separar “milagres” e fenômenos explicados pela ciência é apenas um artifício metodológico: nós, humanos, precisamos compartimentalizar toda a nossa vida para estudo e entendimento; esse é o pensamento moderno, principalmente depois de Descartes. Só que antes desse tipo de “estilo de vida”, interpretávamos tudo como ação de Deus. Exemplo:

E a tornarei em deserto; não será podada nem cavada; porém crescerão nela sarças e espinheiros; e às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela.

Isaías 5:6

Em diversas passagens podemos observar que Deus faz chover. Só que, quem manda chuva não são as nuvens? E as nuvens não são formadas por processos físicos naturais? Isso é o que entendemos hoje, na separação científica do mundo moderno: no fim, tudo é controlado por Deus.

Acho que você já entendeu o ponto que quero chegar. Sintetizando: Deus cria, controla, governa e age na natureza. Ponto. Algumas coisas entendemos, outras não; mas tudo é natural no sentido que está dentro da criação de Deus. Essa ideia de sobrenatural no sentido de quebra de leis físicas é um pensamento moderno vindo de Hume; os povos antigos interpretavam ações naturais como intervenção divina: chuva, seca, crescimento de plantação etc. Observe que nosso pensamento foi dividido metodologicamente, e não na essência: tudo continua sendo feito por Deus, não importa se sabemos ou não como tal coisa funciona.

Acima falei sobre revelação geral: é uma das formas de Deus comunicar com o ser humano ou, no máximo, demonstrar a ele que há um criador de todas as coisas. Nesse quesito podemos até imaginar ou entender as interpretações astrológicas dos magos ou de diversos outros povos: sinal comunicativo da divindade (Deus / deuses). Para nosso entendimento, é Deus trazendo os sinais astronômicos para revelar algo para quem não O conhece (caso dos magos). Em outras palavras: muitos sinais que os povos antigos interpretavam, nos céus, como sendo prenúncios de ações da divindade, na realidade, eram oráculos do que Deus faria.

Em resumo: Deus é o criador, controlador, governador e mantenedor de toda a criação. Algumas coisas sabemos como funciona, outras não. Tudo é natural no sentido de que está dentro da natureza criada por Ele e não há nada de sobrenatural no sentido de quebra de leis físicas que Ele mesmo criou. A separação entre milagre e “coisa explicada pela ciência” é metodológica: tudo é feito por Deus, inclusive as leis para funcionamento de tal fenômeno. Os fenômenos astronômicos que aconteciam no passado eram atribuídos à divindade por ser ela quem controla o mundo; hoje em dia atribuímos tudo a Deus por Ele ser o Deus Supremo de todas as coisas.

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor.

Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.

Isaías 55:8, 9

Só isso?! Sim! Mas, ficou em dúvida, quer perguntar algo, deixar algum comentário ou sugerir algum tema, deixe abaixo! Ficarei feliz em te responder, seja nos comentários ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • Sobre milagres e física quântica, de forma muito simples, gravei esta live no canal Teodidatas com o prof. Carlos Xavier: https://www.youtube.com/watch?v=ttB34xYvPFo;
  • A Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²) tem uma playlist chamada Lab ABC² muito boa, com uma linguagem bem acessível principalmente para jovens. Em alguns episódios é mencionado a questão de como (processos) que Deus intervém na natureza. Não trabalhei, especificamente, sobre esse tema, mas já é um excelente complemento: https://www.youtube.com/playlist?list=PL5G8lUegbkJY8omKs4rmi-XRmkfGIJuCe;
  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Não entrei na temática, propriamente dito, mas deixo como complemento o livro Teologia natural: uma nova abordagem, por Alister McGrath, 1ª edição, editora Vida Nova. A ideia, em linhas gerais, é construir um mundo funcional a partir da existência de Deus, que é diferente da teologia natural clássica (provar a existência de Deus a partir do mundo);
  • Outro livro muito interessante sobre a “assinatura” de Deus na natureza é o Ajuste fino do universo: em busca de Deus na ciência e na teologia, por Alister McGrath, editora Ultimato em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência.
Aglomerado de galáxias Abell 370. Cada pontinho distante é uma galáxia.
Fonte: https://hubblesite.org/contents/media/images/2018/39/4229-Image.html?Type=01-hubble-favorites&Type=02-observations&itemsPerPage=100&Topic=104-stars-and-nebulas&Topic=106-universe
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

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