Superando a Ansiedade em Momentos de Crise

Vivemos em uma sociedade assinalada pela ansiedade. Nesta era marcada pelo ritmo galopante das revoluções tecnológicas e pelo frisson dos desafios frente a um futuro incerto e perigoso que nos cercam, angústias, aflições, agonias e ansiedades podem nos sufocar se não forem bem administradas. Tais sentimentos se intensificaram, nos últimos dias, por conta da grave crise por que o mundo está passando com o advento da pandemia provocada pelo novo coronavírus. Na busca por respostas das causas de tamanha ansiedade nos seres humanos, especialistas do comportamento humano, como psicólogos, filósofos, sociólogos e teólogos, vêm estudando esse fenômeno social, buscando apresentar as razões do problema e buscar respostas que possam mitigar os efeitos danosos da ansiedade.

Não é novidade que as relações sociais nos últimos tempos estão sendo marcadas pela volatilidade, pelo ritmo acelerado do dia a dia e pela superficialidade. As relações sólidas que demandem tempo e energia para com o próximo estão cada vez mais escassas, até mesmo no convívio mais íntimos entre os próprios familiares. Hoje, tudo é feito para ser instantâneo e fluido. Basta olhar o volume de informações que circulam nas redes sociais. Exigem-se textos rápidos e vídeos curtos. Nínguém tem tempo para coisas extensas e, infelizmente, esse modelo de sociedade também dominou o convívio em sociedade com relações rápidas. Isso tudo vai ao encontro do conceito de liquidez que foi consagrado e aplicado pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) à sociedade moderna. Ele definiu a sociedade atual como “Modernidade Líquida”, termo metafórico cunhado em referência ao estado físico da água (líquido, sólido e gasoso). Para ele, a Modernidade Líquida reflete o estado atual da humanidade em face às relações rápidas e fluidas do mundo contemporâneo.

Modernidade SólidaModernidade Líquida
Sociedade de produtoresSociedade de consumidores
Consumo para sobrevivênciaConsumo para ser aceito socialmente
Instituições sólidasInstituições fluidas
DurabilidadeObsolência programada
Fonte: www.todamateria.com.br/modernidade-liquida

Uma das características da liquidez é a volatilidade que, aplicada a esfera social, revela a desorganização das vidas, por ausência de afetos, de comunhão e de amor, totalmente oposto ao que a Palavra de Deus ensina, que é o amor, a fraternidade e a durabilidade das relações. A modernidade líquida, na visão de Bauman, é marcada pela fluidez, pelo constante movimento e pela imprevisibilidade. Tal qual um álcool concentrado se evapora rapidamente ao sair do recipiente (para usar a linguagem de prevenção em voga), assim é a maioria das relações humanas. Nada é duradouro. Até mesmo o matrimônio, considerado um sacramento por seguimentos da cristandade, na sociedade líquida, ele está cada dia mais relativizado, inclusive no meio conservador.

Tais características modernas, porém, não são assuntos novos nas Escrituras. O modelo atual de sociedade volátil que busca o prazer acima de tudo já foi previsto pelo apóstolo São Paulo. Em sua segunda carta ao jovem Timóteo, no capítulo 3, versos de 1 a 5, ele já apontava para as características da sociedade atual e apóstata, cuja marca seria uma sociedade fluida:

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-se. (2Timóteo 3:1-5)

Como consequência, temos uma sociedade marcada pela ansiedade e pelos transtornos psicossomáticos. Jesus, há mais de dois mil anos atrás, no Sermão da Montanha, já nos ordenou que não deveríamos andar com a marca da ansiedade, porque isso revelaria a identidade de um homem não-regenerado cujo foco central é a busca desenfreada pelos prazeres efêmeros desta Terra. O cristão verdadeiro não anda ansioso porque ele sabe que somos “peregrinos e forasteiros” (1 Pe 2.11), e que “nossa pátria estás nos céus de onde esperamos nosso Salvador que transformará o nosso corpo de humilhação em copo glorificado”. (Fp 3.20-21).

Sermão da Montanha (Mateus 5-7)

Então, por que não devemos andar ansiosos?

Jesus, no seu sermão mais famoso – Sermão da Montanha -, trouxe algumas verdades que nos revelam o porquê que não devemos andar ansiosos. Passo a listar pelo menos quatro razões que serão úteis para você superar a ansiedade nesse momento de crise.

Primeiro. Não precisamos de muita coisa para subsistência.

Jesus indaga: “não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?” (Mateus 6:25)

Por mais óbvio que pareça, Jesus está nos chamando a memória de que não precisamos de muita coisa para sobrevivermos. São os nossos caprichos e vaidades que, muitas vezes, são colocados como condicionantes para a nossa felicidade. Só damos valor ao alimento e às vestimentas, ou seja, ao sustento dado por Deus, quando temos falta deles. Basta observar os lugares onde há escassez de sustento devido a guerras e a desigualdades sociais.

Segundo. É preciso acreditar que Deus tem cuidado de você.

 Jesus disse: “Olhai para as aves dos céus….” (Mateus 6: 26) e “Olhai para os lírios do campo….” (Mateus 6:28).

Aqui o Senhor demonstra a sua soberania e seu amor não somente pelos seus filhos, mas também pelas demais criaturas que vivem na Terra. O Senhor está dizendo que se Ele cuida até mesmo das aves dos céus e dos lírios do campo que não semeaiam e nem plantam, ou seja, não aderem ao modo de produção dos humanos, quanto mais ele cuidará da criatura que foi feita conforme à sua imagem e à sua semelhança. Em outras palavras, o Senhor está dizendo que Ele tem o domínio e o controle de todas as coisas e, especialmente, dos seus filhos.

Terceiro. Você não tem o domínio da sua vida.

Não adianta “andar ansioso” porque você não tem o domínio de sua vida. Jesus disse: “qual de vós poderá, com suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso de sua vida” (Mateus 6:27). Em outras palavras, do que adianta tanta preocupação, se você não saberá se estará vivo amanhã? Essas preocupações doentias, na prática, são nada mais do que o pecado da jactância que se manifesta nos seres humanos. (Tiago 4:16).

Quarto – Existe um Reino que se inicia aqui e continuará na eternidade.

A ansiedade promovida pela sociedade líquida tenta tirar o foco do conceito do “Reino de Deus”. Um dos pilares da modernidade atual é a negação de DEUS. É uma sociedade que estimula a descrença no sagrado, por meio da banalização, do comércio da fé, da blasfêmia e da ridicularização. Porém, é necessário voltar nosso foco para as promessas de Cristo que disse: “Buscai primeiro o seu reino e a sua justiça…” (Mateus 6.33). Ao se ter isso como diretriz, tenha certaza que a Palavra de Cristo que afirma que “todas as demais coisas nos serão acrescentadas” (Mateus 6:33) se tornará realidade na sua vida.

Jesus continua dizendo que “basta a cada dia o seu mal“. Não adianta andar ansioso por coisa alguma, já que não está no nosso domínio o que sucederá no dia de amanhã. A sociedade marcada pela fluidez da pós-modernidade é uma geração sem Deus. Jesus disse que “os gentios procuram todas essas coisas”. (Mateus 6:32), isto é, ficam o dia todo preocupado com o futuro e como vão auferir mais riquezas materiais. Com isso mergulham nas suas angústias e nas suas ansiedades, porque essa busca não satisfaz completamente o vazio do homem. Dostoiévski (1821-1881) disse que “todo homem tem um vazio do tamanho de Deus”. Seria esse vazio da alma que só pode ser preenchido por Deus? De fato somente a Paz de Cristo (Shalom) é capaz de satisfazer a necessidade integral do ser humano.

Quero concluir dizendo que é muito difícil viver no meio de uma sociedade marcada pelas relações voláteis e fluidas. Porém, para não andarmos ansiosos, temos que submeter nossas vidas aos mandamentos de Jesus. Ele já nos ordenou que não devemos andar ansiosos por coisa alguma, porque Deus tem cuidado de nós. O apóstolo Pedro traz uma excelente recomendação para que você tenha uma vida tranquila, sem ser atingida pelas mazelas provocadas pelo excesso de ansiedade. Ele diz que devemos lançar sobre Ele (Jesus) todas as nossas ansiedades porque Ele tem cuidado de nós.  “Lançando sobre ele toda vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1 Pedro 5.7). Lembre-se, Jesus te ama!

Até a próxima!

Me. Francirley Oliveira

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