A Marca da Besta

A marca da besta é um dos temas mais intrigantes do livro de Apocalipse. Uma parcela de estudiosos advoga a ideia de que a marca é tomada num sentido literal, ou seja, haverá um sinal visível em que os seguidores da besta serão identificados. Porém, outros especialistas defendem que essa marca não pode ser tomada em seu sentido literal, mas como uma expressão simbólica.

O assunto é tratado no capítulo 13 de Apocalipse. Esse capítulo apresenta o surgimento de duas bestas: a primeira surge do mar e a segunda surge da terra. Elas são braços de atuação do diabo e formam, com ele, uma tríade de oposição ao cristianismo. Isso representa uma espécie de plágio da trindade santa (Pai, Filho e Espírito Santo).

A besta é uma espécie de animal que simboliza a atuação do império de Satanás por intermédio de um agente ou representante. De acordo com o Apocalipse, a segunda besta emerge da terra, possui dois chifres, parece com um cordeiro, mas fala como um dragão (v. 11). Veja que essa aparência externa de cordeiro é uma falsa identidade de Cristo, visto que a Bíblia o apresenta como um cordeiro autêntico (Ap. 5.6; Is. 53.7), o que aponta para a mansidão de Cristo.

Todavia, essa aparência de cordeiro da besta não passa de uma fake news, visto que logo em seguida o próprio texto afirma que ela falava como um dragão. Falar como um dragão aponta para o fato de que ela age em subordinação ao Diabo, pois no capítulo anterior (cap. 12) ele é apresentado revestido na forma de um dragão. Em outras palavras, essa besta é identificada com a atuação e propósitos do Diabo.

Esse animal (besta que emerge da terra) representa a falsa religião, bem como os falsos profetas. Entenda que uma de suas atividades é operar grandes sinais de maneira que faz até fogo descer do céu (v. 13). Essa característica nos traz à memória a passagem em que o profeta Elias conseguiu levar uma multidão de pessoas ao arrependimento ao invocar a Deus de maneira que até fogo caiu dos céus como prova de que o Deus de Israel era o único Deus (1 Rs. 18.38,39).

Todavia, a atuação de Elias levou o povo ao arrependimento, diferente dessa besta que opera sinais miraculosos no intuito de seduzir o povo à adoração falsa (v. 14). Desse modo, essa besta representa o falso profeta ou a falsa religião e sua missão primordial é promover o engano.

Examinemos agora o texto-chave:

E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome (Ap. 13. 16,17).

O texto afirma que essa besta colocará uma marca na mão direita e na testa de seus fiéis seguidores. Uma corrente doutrinária defende que se trata de uma marca visível, um sinal corpóreo por meio do qual os adoradores da besta serão identificados.

Em razão dessa linha de interpretação, muitos estudiosos vivem como sentinelas em prontidão para decifrar essa eventual marca da besta. Muitos já associaram essa marca aos códigos de barra, cartões de crédito, biochip, transferências bancárias pelo Pix e até mesmo às vacinas contra o SARS-CoV-2 (coronavírus).

O biochip, segundo os defensores dessa escola de pensamento, tinha grande potencial de ser a marca da besta visto que ele é implantado na testa ou na mão direita, característica que o aproxima do sinal da besta.

Há, também, o microchip que detecta o coronavírus antes mesmo do paciente apresentar quaisquer sintomas. Esse microchip é implantado no corpo e foi desenvolvido por cientistas que trabalham na unidade secreta do Pentágono (centro de inteligência norte-americano), segundo informações do programa 60 Minutes da CBS.

Com todo respeito a essa teoria, interpretar a marca da besta como um sinal físico externo ou corpóreo não se coaduna com o espírito do Apocalipse em que é notório o uso de termos e expressões em sentido simbólico: Cristo passeando entre os candeeiros em que estes simbolizam a igreja (Ap. 1.12), Cristo como um cordeiro com sete chifres (Ap. 5.6), a mulher e o dragão (Ap. 12), os 144 mil selados (Ap. 14.1), a grande meretriz (Ap. 17) e muitas outros símbolos.

A marca (grego charagma) era utilizado pelo governador como selo de aprovação do imperador em contratos empresariais e para a impressão da cabeça do governante romano em moedas. Tem essa ideia em mente, a marca deve ser interpretada como um “selo de aprovação” dado aos seguidores da besta que satisfazem suas reivindicações religiosas.

Perceba que o reino do maligno é praticamente uma reprografia falsa do que Deus criou. Assim como a trindade santa, há também a trindade maligna. Então essa marca deve ser entendida como simbólica em consonância com o selo “colocado” por Deus nos seus fiéis.

Veja o que Paulo afirma aos Efésios: em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa (Ef. 1.13). Veja que todo verdadeiro cristão já possui um selo, no entanto não se trata de uma marca ou sinal externo visível.

Os versículos 2 e 3 do capítulo 7 de Apocalipse também fundamentam essa interpretação: vi outro anjo que subia do nascente do sol, tendo o selo do Deus vivo, e clamou em grade voz aos quatro anjos, aqueles aos quais fora dado fazer dano à terra e ao mar, dizendo: Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte os servos do nosso Deus. Veja que os servos de Deus são selados na fronte idêntico ao que acontece com o sinal da besta, porém, que isso fique bem claro, ambos os selos não são interpretados de forma literal.

Não poderíamos deixar de fazer menção ao gozo final dos redimidos quando a Bíblia afirma que “os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele”. Mais uma vez nos deparamos com um sinal na fronte do salvos que também não se trata de um sinal no exato sentido da palavra, mas uma marca simbólica.

Não podemos esquecer que muitas ideias e símbolos do livro de Apocalipse são retirados do Antigo Testamento. Nesse sentido, a fim de lembrar o povo de Israel da lealdade aos seus mandamentos, Deus ressaltou que a Torá devia ser “como sinal na tua mão e por memorial entre os teus olhos” (Ex. 13.9). Veja que os locais dessas marcas são os mesmos indicados para a marca da besta: na mão direita e na fronte. A ideia contida no livro de Apocalipse, ao que tudo indica, é resgatada exatamente dessa passagem veterotestamentária.

Guardar a Torá como um memorial “entre os teus olhos”, ou seja, na fronte representa o conhecimento e comprometimento intelectual com a Lei, ao passo em que a expressão “como sinal na tua mão” deve ser entendida como a aplicação prática desse conhecimento. Essa passagem transmite-nos a mesma ideia encontrada no livro de Tiago: porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta (Tg.2.26), ou seja, não basta conhecer a Palavra de Deus, é necessário colocá-la em prática.

A marca da besta, localizada na mão direita ou na fronte, não pode ser tomada como algo visível no corpo, a exemplo de um microchip ou mesmo uma vacina contra um vírus, mas como um compromisso de fidelidade incondicional com as obras da besta que é marcada pelo engano, deturpação da verdade divina e falsa adoração. Aliás, é por essa razão que Cristo nos advertiu: acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores (Mt. 7.15).

Ressalte-se que, embora possamos padecer lutas e dificuldades, não precisamos temer, pois o verdadeiro servo de Deus jamais terá qualquer identificação com as obras da besta, primeiro porque já temos o selo do Altíssimo (Ef. 1.13) e, segundo, porque Cristo afirmou que “as minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo. 10.27,28).

Autor: Josué Santos, membro da IPB.

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