2. DEUS E O PROBLEMA DO MAL: CONCEITOS

Dentre três objeções que o cristianismo enfrenta, o problema do mal sem sobra de dúvidas é o mais ferrenho de todos. As outras duas objeções se referem à questão epistemológica que visa colocar em dúvida a autoridade das Escrituras, dizendo que ela não é a Palavra de Deus; e a questão ontológica que busca apresentar supostas incoerências entre os aspectos de fé em comparação com as evidências apresentadas pela ciência moderna. Nesse último caso, sempre somos questionados sobre alguns eventos narrados pela Bíblia, supostamente incompatíveis com a ciência, tais como a idade da Terra, a criação do homem e a existência dos dinossauros. Esses temas giram em torno da teoria da Terra Jovem ou Antiga, com implicações distintas para o texto bíblico. Sobre esses assuntos, recomendo as leituras dos artigos Criacionismo da Terra Antiga (CTA) e o Criacionismo da Terra Jovem (CTJ) de autoria do Dr. Alexandre Fernandes publicados neste portal.

Como abordei no post passado, o grande dilema do problema do mal se esbarra na suposta incompatibilidade entre os atributos da onipotência e bondade de Deus e a existência do mal. As proposições lógicas que podem ser extraídas das Escrituras são: 1. Deus é todo poderoso; 2. Deus é totalmente bom; 3. O mal existe. Não há como fugir dessas verdades que são pacíficas nas Escrituras. Porém, o que se indaga no paradoxo filosófico são: como elas podem coexistir entre si? Se Deus é Todo Poderoso, por que não destrói o mal? Ou por que Deus permitiu a existência do mal sendo Ele totalmente bom?

Antes de prosseguir, é importante deixar bem claro que as Escrituras vão dizer que Deus é – de fato – Todo-Poderoso (Jeremias 32:27, Lucas 1:37). Esse atributo, inclusive, também é manifestado em Jesus Cristo (Apocalipse 1:8), sendo este uma das provas evidentes da doutrina da Trindade. A mesma verdade bíblica também se diz sobre sua bondade. A Bíblia afirma que Ele é totalmente bom (Salmos 136:1-26; Marcos 10:17-18). Por outro lado, a Bíblia está repleta de exemplos que falam da existência do mal (Provérbios 8:13; Romanos 12:9), e que sofrimentos ocorrem pela sua presença.

Quero neste artigo apenas clarificar os conceitos bíblicos de onipotência e de bondade. Para muitos, o fato de Deus ser Todo-Poderoso (El Shadday no hebraico) implicaria, necessariamente, que Deus pode sair fazendo quaisquer coisas aleatoriamente, mesmo aquelas sem lógica e sentido. Essa mentalidade dos filmes de hollywood não se aplica ao Deus bíblico. Deus é Todo-Poderoso, mas segue as leis que Ele mesmo criou. O Grande “Eu Sou” não fica toda hora brincando de alterar suas leis como se as obras da sua criação fossem um palco de diversão. Todas as coisas criadas nos Céus e na Terra seguem princípios físicos, morais e espirituais criados por Deus. Inclusive a obra da Redenção segue o curso previamente planejado por Ele antes da criação do Mundo. O livro de Apocalipse é bem claro em dizer que Jesus, o Cordeiro de Deus, foi preparado antes da criação do mundo:

E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Apocalipse 13:8

Outro ponto que precisa ficar claro é o significado do atributo da bondade. O aspecto desse atributo está relacionado à própria noção de Deus. Conforme diz Berkhof, somente “Ele é bom na acepção metafísica da palavra”, Ele é “a perfeição absoluta e felicidade perfeita em Si mesmo”. Por isso que Jesus afirmou ao jovem rico, em Marcos 10:17, que ninguém é Bom, a não ser Deus. Jesus ali estava falando como homem e apresentando uma concepção plena do significado da bondade.

A título de comparação, os atos de bondade praticados pelos homens são reflexos da imago dei que brotam a partir da fonte inesgotável vinda de Deus. Só há noção de bondade no homem a partir do conhecimento do seu criador que é, essencialmente, a perfeição absoluta em Si mesmo. O conceito de bondade do senso comum e, sobretudo, do homem caído não é o mesmo quando se refere à pessoa de Deus. Eu posso praticar supostos atos de bondade, que, muitas vezes, evidencie um desejo espúrio por detrás dele, ou, na maioria dos casos, buscando receber algo em troca. É nesse sentido que o profeta Isaías vai dizer que “todas as nossas boas ações são como trapos sujos” (Isaias 64:6 NLH) quando realizadas fora de Cristo.

Em Deus não há essa relação. Seus atos de bondade estão ancorados nos demais atributos que lhes são inerentes: amor, misericórdia, longanimidade, santidade e justiça. Só conhecemos esses conceitos e atributos nas suas formas plenas porque Deus nos revelou por meio de Sua Palavra. Portanto, é por meio dela que tentaremos, nos próximos posts, refletir sobre a origem do mal e o propósito divino ao se permitir a existência dele.

Até breve!

Me. Francirley Oliveira

Fontes consultadas:

Louis Berkhof, Teologia Sistemática, Editora Cultura Cristã;

Luiz Sayão. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O Caso de Habacuque. São Paulo: Hagnos;

R. K. MacGregor Wright, A Soberania Banida, Editora Cultura Cristã;

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