Moeda e dinheiro

E Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o Espírito Santo, lhes ofereceu dinheiro,Dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo.

Atos 8:18,19

A coluna de hoje é sobre um assunto bastante simples e de fácil entendimento: moeda e dinheiro. Intuitivamente, você tem uma definição para dinheiro e que, sem perceber, coloca no mesmo cesto, a definição de moeda. Como já mencionei na coluna sobre Valor, dinheiro e moeda são conceitos diferentes de valor. Nessa diferenciação, entra também um outro conceito, que veremos em um outro texto, o preço. Quero fazer conceituações simples e um pouco mais formais. A parte simples é justamente com intenção de sair do senso comum através do uso de exemplos. Começando com dinheiro.

Dinheiro é o papel moeda, as cédulas, as moedas. No nosso país, o dinheiro é o Real (símbolo R$). Um exemplo de dinheiro:

Acervo pessoal

As moedas acima são de uso corrente: R$ 0,65. O dinheiro Real entrou em circulação em 1994. Como curiosidade: ele é instituído na lei 8.880/94, é emitido em 1° de julho de 1994 e na lei 9.069/95 é regulamentado suas regras. Na sessão Sugestão de leitura há um livro indicado sobre a história do dinheiro Real (A moeda e a lei, por Gustavo Franco).

Apenas para fechar a ideia intuitiva sobre dinheiro. Dinheiro, em outras palavras, é a coisa que usamos para trocar mercadorias. Por exemplo, vou ao mercado, deixou uma quantidade de R$ 30,00 no caixa e, levo para casa, 1 kg de queijo. O mercado ficou feliz por ter minhas notas que, somadas, tem o “valor” de R$ 10,00 e eu também, porque voltei para casa com queijo. Veja que coloquei a expressão valor entre aspas; vou retirá-lo das aspas consciente de que você já sabe o que é valor.

Moeda, de forma simples, é confundido com dinheiro. Aliás, nós fazemos essa troca de expressão no dia a dia. Mas, para uma melhor significação, moeda é a mercadoria que usamos para fazer trocas por outras mercadorias. E isso é muito mais abrangente que dinheiro. Apenas para deixar explícito: todo dinheiro é moeda, mas nem toda moeda é dinheiro.

Nesse conceito, ainda no campo do dia a dia, moeda é a coisa que trocamos. Às vezes até dizemos que tal coisa foi usada como moeda de troca. É uma redundância esta expressão, mas ela destaca o que já temos de forma comum. Por exemplo, suponha que eu quero consertar meu celular. Meu amigo, que é técnico, propõe que, ao invés de pagá-lo com dinheiro (reais, R$), eu ensine-o matemática financeira. Fechamos negócios: ele conserta meu celular e eu dou aulas a ele de matemática financeira.

Isso mesmo que você pensou: moeda é um meio de troca e que lembra o escambo: eu te dou tal mercadoria e você me dá aquela mercadoria. Isso é o rudimento da moeda, mas não é a moeda em si, ainda, porque a moeda tem funções na economia, que veremos em breve. Apenas para fechar a ideia: dinheiro é um tipo de moeda porque cumpre as funções de moeda. Também, dinheiro é uma mercadoria, porque troco-o por outros dinheiros ou por produtos e serviços. Intuitivamente, o dinheiro também é um meio de troca.

Antes de continuar, uma pausa para fazer a mesma separação de dinheiro e moeda, mas no inglês. Lá também temos os mesmos problemas que em português, com a diferença que os trabalhos em economia (livros e artigos) que são escritos em inglês tem a vantagem de serem melhor colocados nos conceitos que mostrei acima. Mas, ou por descuido ou em nome de uma didática mais ampla, na hora de traduzir para o português, há uma mistura entre as expressões dinheiro e moeda.

No inglês as duas palavras são cash e money. Cash é o nosso dinheiro, o papel, as moedinhas, o Dólar, o Real. Money é, melhor traduzido e conceituado, moeda. Exemplo de cash / dinheiro: Real, Dólar, Libra esterlina, Dólar canadense etc. Por outro lado, money / moeda é o meio de troca mais amplo, como o próprio dinheiro, títulos do mercado financeiro, ouro, prata, depósito no banco, cheque, bitcoin (uma moeda específica do tipo criptomoedas) etc. Um adicional: no espanhol ocorre a mesma coisa que no inglês e português. As expressões são moneda, para moeda, e dinero, para dinheiro. As definições são exatamente as mesmas.

Acho que ficou bastante claro a diferença, de forma simples e cotidiana, entre dinheiro /cash e moeda / money. Lembrando que todo dinheiro é moeda, mas nem toda moeda é dinheiro. A moeda inclui mais do que unidade do Sistema Monetário Nacional (Real). Vamos dar um passo a mais, agora trabalhando com a definição mais formal de moeda e dinheiro. Começando com moeda e invocando Paul Krugman:

Moeda é definida em termos do que ela faz: moeda é qualquer ativo que pode ser usado facilmente para comprar bens e serviços.

Krugman, Introdução à economia

A moeda tem três finalidades:

  • Reserva de valor: algo que as pessoas podem usar para transferir poder de compra do presente para o futuro;
  • Unidade de conta: o padrão de medida que as pessoas usam para estabelecer preços e registrar dívidas;
  • Meio de troca: algo que os compradores dão aos vendedores quando querem comprar bens e serviços.

Na última finalidade da moeda entra um conceito muito importante: liquidez. Liquidez é a facilidade com que um ativo pode ser convertido em meio de troca da economia. Ativo é um conceito da contabilidade e, em linhas gerais, significa riqueza que pode ser utilizada de imediato. Por exemplo, maquinário, edifício, empréstimo que uma empresa faz a terceiros etc. Em outras palavras: qualquer bem (ativo) pode ser usado de forma rápida (liquidez) como meio de troca (moeda) para uma finalidade qualquer. Veja que isso pode ou não incluir o dinheiro, reais. Então, se uma determinada mercadoria ou produto cumpre as três finalidades (meio de troca, unidade de conta e reserva de valor) e é líquida ou possui liquidez, este objeto é uma moeda.

Como já está bastante claro, a moeda pode ter várias formas ou “divisões”. A mais clara delas é a moeda fiduciária ou moeda de curso forçado (fiat money). Esta é a que conhecemos como dinheiro: Real, Dólar, Iene (Japão), Franco suíço etc. Ou seja, o nosso dinheiro, Real, é uma moeda fiduciária ou de curso forçado porque ela é imposta pelo governo e não tem valor intrínseco. Veja a imagem abaixo:

Acervo pessoal

Aqui estão R$ 0,81 em moedas. Este dinheiro está em curso normal e consigo comprar, com ele, alguma coisa. Melhor dizendo, consigo trocar estas moedas por alguma mercadoria. Mas, só consigo fazer isto porque no Brasil é obrigatório e imposto que para transações comerciais se utilize o Real. Mas, intrinsecamente, estas moedas acima tem o mesmo valor que a imagem abaixo:

Acervo pessoal

São 105 reais em dinheiro de brinquedo, de um banco imobiliário de papel. Ou seja, as moedas acima, que são fiduciárias ou de curso forçado (governo obriga a utilizá-las em transações comerciais dentro do Brasil) e os 105 reais do Banco Legal do Brasil (de brinquedo; do banco imobiliário de papel) tem o mesmo valor intrínseco: zero.

Não é porque alguém impõe que algo é moeda que esse algo terá valor intrínseco. Lembre-se do caso que mencionei na coluna anterior, Valor, sobre o quanto estou disposto a pagar por uma garrafa de água no meio de um deserto, inclusive, poderia até trocar um diamante por uma água dadas as condições biológicas. Neste caso, a garrafa de água serviu como moeda; tem todas as finalidades e liquidez.

Está bastante claro que, além de moeda fiduciária (que não tem valor intrínseco), há a moeda-mercadoria. Esta, possui valor intrínseco e tem todas as finalidades e liquidez. Um exemplo foi o que acabei de citar, água. Mas, historicamente, há uma outra mercadoria muito conhecida e que por séculos foi a moeda em vários locais do mundo: ouro. Veja que aqui, apesar de chamarmos de moeda-mercadoria, o termo dinheiro é perfeitamente acoplado e é, daqui, que temos a mistura atual de moeda e dinheiro.

Desde os primórdios da civilização, as trocas comerciais existem. Ou seja, pessoas querem determinados produtos e, inicialmente, há trocas ou, o que conhecemos como escambo. Escambo é simplesmente a troca de bens e serviços por outros bens e serviços e isso foi uma pratica muito comum no mundo antes da invenção do dinheiro. Aos poucos, o dinheiro era inventado, mas de uma forma “estranha”. Sal, pedras, tabaco, conchas, metais preciosos e não preciosos, dentre outros, são alguns exemplos de mercadorias que tinham reserva de valor, servia como meio de troca e era unidade de conta: moeda.

Mas chega um momento que as transações ficam complicadas. Imagina você querer trocar 1 par de sapatos com uma pessoa que quer os seus sapatos, mas só tem 1 vaca, viva. Mas você não quer 1 vaca viva: você quer o chapéu do seu José e seu José quer a vaca viva. Imagina a complexidade disso. Para facilitar esse tipo de comércio, é inventado o dinheiro que, conceitualmente, apresenta cinco características:

  • Portabilidade: a moeda-mercadoria deve ser fácil de ser transportada;
  • Durabilidade: a moeda-mercadoria deve ter propriedades intrínsecas que permitam que ela permaneça no espaço e no tempo;
  • Divisibilidade: a moeda-mercadoria deve ser dividida em unidades menores justamente para representar valores proporcionais menores;
  • Estabilidade: a moeda-mercadoria tem de ser estável em seu valor ou em sua representatividade ao longo do tempo;
  • Aceitação: a moeda-mercadoria deve ser aceita, livremente, por pessoas que reconheçam nela seu valor e, com isso, estejam dispostas a trocar bens e serviços por essa moeda-mercadoria.

E é aqui que entra os metais preciosos como ouro e prata. Ao longo da história, o ouro tomou a prevalência em cima da prata como moeda-mercadoria. Já é bem conhecida a história das moedas de ouro em diversos países, como no período mercantilista (Portugal e Espanha). Por outro lado, o transporte de ouro é complicado e ai que surge um certificado de depósito: o ouro era depositado em um local seguro (a história dos bancos começa aqui) e o proprietário recebe um certificado de que, naquele estabelecimento, ele possui 10 kg de ouro. Este certificado ou recibo poderia ser comercializado com outra pessoa. Esta pessoa, depois de comprar o certificado, ia ao estabelecimento seguro e resgatava o ouro depositado, ou seja, os 10 kg que estava escrito no recibo. Temos, aqui, os primórdios do papel moeda.

O padrão-ouro é o lastro ou a garantia de que determinados pedaços de papéis pintados representavam o valor em outro no banco. Por exemplo, antes de 1971 o valor de 1 onça-troy de ouro (31,1035 g de ouro) valia $ 35,00 (35 dólares). Isto é o que chamamos de padrão-ouro ou conversibilidade, ou seja, se eu chegasse a um banco antes de 1971 com $ 350,00, resgataria 311,035 g de ouro: as notas pintadas sem valor intrínseco, 350 dólares, eram certificados de depósito de 311,035 g de ouro.

Em 1971, o presidente dos EUA, Richard Nixon, assinou um documento colocando uma nova política econômica: estava abolida a conversibilidade ou o padrão-ouro. Ou seja, agora o dólar “valia” qualquer coisa que fosse determinado por governos. Aqui temos a elevação do status de um certificado de depósito a categoria de moeda fiduciária ou de curso forçado.

Acredito que há bastante conteúdo para ser refletido aqui. Meu objetivo é que você possa saber diferenciar dinheiro de moeda. Na sessão Sugestão de leitura deixarei várias obras que pesquisei e que acho interessante a você, caso queira complementar este conteúdo ou dirimir curiosidades.

E a construção do seu muro era de jaspe, e a cidade de ouro puro, semelhante a vidro puro.

Apocalipse 21:18

Ficou em dúvida, quer perguntar algo ou fazer alguma crítica / sugestão? Deixe nos comentários abaixo e terei o prazer em te responder aqui ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • Bíblia versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) da Sociedade Bíblica Trinitariana Ela pode ser encontrada via app para celular (Bíblia Fiel) ou pelo site https://www.bibliaonline.com.br/acf;
  • Dez lições fundamentais de economia austríaca, por Ubiratan Iorio. Você encontra esta obra gratuitamente no site https://rothbardbrasil.com/wp-content/uploads/arquivos/dez-licoes.pdf;
  • Introdução à economia, por Paul Krugman e Robin Wells, 2007. Livro texto de economia. Krugman ganhou Nobel de Economia em 2008;
  • Macroeconomia, por Gregory Mankiw, 8ª ed, 2015. Livro texto de uma importante área que trata sobre comércio e economia de países;
  • Introdução à economia, por Gregory Mankiw, 2013. Outro livro texto de Economia.
  • A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo, por Niall Fergunson. Este livro trata um pouco da história das finanças;
  • Stocks for the long run, 6ª ed, por Jeremy Siegel com Jeremy Schwartz. Livro atualizado, publicado no final de 2022 (nova edição). Tem muito conteúdo, principalmente história sobre mercados financeiros;
  • On the origin of money artigo escrito por Carl Menger e publicado em junho de 1892 no The Economic Journal, v. 2, n. 6, pp. 239-255. Há uma tradução em português: Sobre a origem do dinheiro, disponível em https://rothbardbrasil.com/wp-content/uploads/2017/08/Sobre-A-Origem-Do-Dinheiro-Carl-Menger-1.pdf. Este artigo trata das origens da moeda e dinheiro;
  • A moeda e a lei: uma história monetária brasileira, 1933 – 2013, por Gustavo Franco, ed. Zahar. Franco foi um dos mentores do Plano Real que originou o atual dinheiro Real, além de ter sido presidente do Banco Central do Brasil;
  • Tudo o que você precisa saber sobre economia, por Alfred Mill, editora Gente, 2017. É um interessante livro introdutório de economia e, praticamente, um livro de divulgação. Linguagem simples, acessível a qualquer pessoa.
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *