Natal 2020 – A estrela de Belém: cometa?

E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino.

Mateus 2:9

Essa semana comemoraremos a maior festa no Ocidente: Natal. E, para contribuir um pouco com uma temática espacial, estou trazendo textos relacionados com o nascimento de Cristo. Começando na última coluna dei uma possiblidade do que é chamado de Estrela de Belém. Aliás, nesse ano de 2020 houve uma grande propagação desse termo devido a conjunção planetária entre Júpiter e Saturno que teve seu auge de maior aproximação em 21 de dezembro de 2020, justamente 3 dias antes do Natal. A coluna de hoje, ainda no clima natalino e olhado do espaço, delineará sobre cometa como sendo a Estrela de Belém.

Antes, um resumo da coluna anterior, caso ainda não tenha lido (não perca, pois lá tem muito mais detalhes do que esse resumo). Começando com o texto bíblico:

  • Olhando para a Bíblia, apenas Mateus 2 registra um fenômeno de uma estrela (palavra derivada do grego αστήρ, transliterado como astér);
  • Uns magos / sábio / talvez até reis (chamarei apenas de magos) vieram de alguma região oriental a Jerusalém em busca do rei dos judeus. Eles derivaram esse conhecimento através da observação astronômica e interpretação astrológica, muito possivelmente vindo de raiz greco-romana com influências babilônicas;
  • Herodes, rei ilegítimo e atual da região da Judéia, conversa com seus assessores (escribas e líderes sacerdotais) e verifica que há uma profecia em Miquéias 5:2 sobre o nascimento do rei dos judeus em Belém. Envia os magos para essa cidade;
  • Ao partirem da presença de Herodes, os magos observam a mesma estrela que tinham visto no oriente e, na visão deles, a estrela se detém na casa de Jesus;
  • Veja que o verso 9 do capítulo 2 de Mateus diz que eles se alegraram muito ao ver a estrela, que era um indicativo ou sinal do nascimento do rei.

A hipótese levantada na coluna passada é que esse fenômeno foi uma conjunção planetária entre Júpiter e Saturno. Apenas como ilustração, simulei alguns dias antes e depois do máximo alinhamento, que estou colocando como 29 de maio do ano 6 a.C. Considerei dias com menos de 2º de distanciamento visual entre os planetas, sempre as 4:00 da manhã:

Simulação pelo Stellarium, região de Jerusalém, direção sudeste, 9 de maio do ano 6 a.C., 4:00 da manhã. Distância angular entre Júpiter e Saturno: 1o 57’ 36,03” (1,96000º)
Simulação pelo Stellarium, região de Jerusalém, direção sudeste, 19 de maio do ano 6 a.C., 4:00 da manhã. Distância angular entre Júpiter e Saturno: 1o 17’ 2,31” (1,28397º)

A máxima aproximação, em 29 de maio do ano 6 a.C., muito semelhante ao que ocorreu no dia 21 de dezembro de 2020:

Simulação pelo Stellarium, região de Jerusalém, direção sudeste, 29 de maio do ano 6 a.C., 4:00 da manhã. Distância angular entre Júpiter e Saturno: 0o 59’ 5.14” (0,98476º)

Depois, começam a se separar:

Simulação pelo Stellarium, região de Jerusalém, direção sudeste, 10 de junho maio do ano 6 a.C., 4:00 da manhã. Distância angular entre Júpiter e Saturno: 1o 17’ 39,02” (1,29418º)
Simulação pelo Stellarium, região de Jerusalém, direção sudeste, 24 de junho maio do ano 6 a.C., 4:00 da manhã. Distância angular entre Júpiter e Saturno: 1o 55 5394” (1,93165º)

Observe que entre 9 de maio de 24 de junho a distância angular entre Júpiter e Saturno é de menos de 1º (menor do que a distância do seu menor dedo olhando de frente; veja na coluna anterior como medir, com sua mão, distância angular).

Ou seja, é bastante razoável creditar na conjunção planetária entre Júpiter e Saturno na Estrela de Belém. Mas, como tudo o que fazemos em ciência, essa não é a única hipótese provável: há outros fenômenos que também podem explicar a narrativa de Mateus.

Cometas

Talvez uma das primeiras possibilidades a ser considera para a Estrela de Belém seja um cometa. Colin Humphreys escreveu um interessante artigo em 1995 na revista Science and Christian Belief onde chega a referenciar Orígenes, um teólogo com boas polêmicas do séc. III, como sendo um dos primeiros a teorizar um cometa como sendo a estrela mencionada por Mateus. E isso entrou no imaginário popular ao longo dos séculos seguintes chegando até nas artes, como a pintura, retratando o objeto de gelo como sendo a Estrela de Belém. Por exemplo, na belíssima obra de Giotto di Bondone:

Pintura Adoração dos magos, por Giotto di Bondone, 1301. Observe o cometa, na parte superior da tenda onde está Maria e José com Jesus.
Fonte: https://scienceblogs.de/astrodicticum-simplex/2008/12/21/der-stern-von-bethlehem/

Futuramente, na série Cosmologia detalharei sobre cometas. Mas, para adiantar o assunto dentro do nosso contexto, cometas são corpos celestes que orbitam o Sol, ou seja, estão dentro do sistema solar (há uma discussão se pode haver cometas de outras partes). Eles possuem uma quantidade de poeira, gás e gelo o suficiente para que, quando se aproximam do Sol, há sublimação do gelo, formando uma nuvem (de gás e poeira) ao redor do núcleo. E, na trajetória mais perto do Sol, além dessa nuvem, também aparece uma gigantesca calda. Em resumo, cometa é uma grande bola de gelo sujo (poeira) e gás.

Cometa Swam
Fonte: https://apod.nasa.gov/apod/ap200429.html

Observe a imagem acima do cometa Swam. Ele passou “perto” na Terra em maio de 2020. Tive a oportunidade de vê-lo, com muita dificuldade, com meu simples telescópio. Claro, não o vi com toda essa beleza que é mostrado na imagem: um núcleo brilhante e uma gigantesca calda, frutos da aproximação com o Sol. As cores, que tem um tratamento fotográfico bem característico da astronomia para registro de imagens, reflete a composição dos gases e poeira que o cometa possui. Este, especificamente, ficou vários dias no céu e diversas imagens foram registradas.

Cometas podem ser periódicos, como o conhecido Halley: a cada 75/6 anos nos visita, sendo a última em 1986 e a próxima aparição, 2061. Também podem ter trajetórias com tempo de aparição, na Terra, muito grandes, ou seja, podemos observar 1 vez e a próxima, em milhares de anos. Outro detalhe é que não conhecemos todos os cometas que existem no sistema solar, sempre estamos descobrindo algum. Com tudo isso em mente, a primeira coisa natural a se pensar é que seria o Halley, o cometa mais famoso, a Estrela de Belém.

Humphreys faz uma citação de que o Halley tenha passado perto da Terra em 12 a.C., um registro dos chineses que é o mais bem feito até o século VI. Mas, 12 a.C. é uma data muito antiga para o nascimento do Messias. Por outro lado, Humphreys cita um outro cometa que passou na região da constelação de Capricórnio, registrado também pelos chineses, no ano 5 a.C. (ou 6 a.C. ao simular pelo Stellarium; há um ajuste no programa de 1 ano para datas antigas), entre final de março e início de abril. Para piorar a nossa situação: esse é o exato período que se tem a conjunção planetária de Júpiter e Saturno, além da ascensão helíaca.

Observe a imagem abaixo. Simulei o céu de Jerusalém no dia 28 de março do ano 6 a.C., por volta das 5:00 da manhã. O Sol ainda está para nascer, Júpiter e Saturno estão visíveis no céu (estão se aproximando e, nesse momento, estão a 5º 56’ 34,31” ou 5,94285º), pertos de uma belíssima Lua nova. As constelações, agrupamento visual de estrelas, estão formando imagens como Capricórnio, Aquário, Sagitário e Pégaso (sim, sei que é muita imaginação “ver” essas figuras em um conjunto esparso de pontinhos; mas é o que a cultura grega via).

Simulação pelo Stellarium, região de Jerusalém, direção leste, 28 de março do ano 6 a.C., 5:06 da manhã.

De acordo com os chineses, seria visível um cometa na região de Capricórnio e durou cerca de 70 dias. A constelação já era visível completamente por volta das 2:30 da manhã:

Simulação pelo Stellarium, região de Jerusalém, direção leste, 29 de março do ano 6 a.C., 2:27 da manhã.

Na simulação que fiz, como está acima, o cometa Halley estava muito distante, na ordem de 5,1 bilhões de km. E, as simulações que fiz acima, tentando encontrar as 2 menores distâncias que englobasse o intervalo de 7 e 4 a.C., estão muito longe do fenômeno Estrela de Belém. Resumindo: é altamente improvável que a estrela guia dos magos tenha sido o cometa Halley.

Vou resumir esse monte de informação:

  • Uma outra possibilidade para a Estrela de Belém, além da conjunção planetária de Júpiter e Saturno, é a passagem de um cometa;
  • Cometa é um corpo celeste que é composto, basicamente, de gelo, gases e poeira. Ao se aproximar do Sol há o aparecimento de um núcleo maior e uma longa calda, que são devidos a evaporação do gelo e efeitos de gases;
  • O cometa Halley é registrado, aproximadamente, no ano 12 a.C., sendo bem visível. É improvável que seja a Estrela de Belém dado a data que é anterior;
  • Há um outro cometa que passou perto da Terra no ano 6/5 a.C., justamente no período que ocorre a ascensão helíaca e a conjunção de Júpiter e Saturno, além de estar dentro do período que acreditamos ser o de Cristo.

Um outro detalhe curioso é que passagem de cometas tem vários sinais associados. Colin Nicholl, no livro The Great Christ Comet lista 10 razões para que a Estrela de Belém seja um cometa e algumas delas está associado a questão de mudança de um sistema governamental: observe que o verso 3 de Mateus 2 fala que o rei Herodes ficou muito abalado com a notícia em forma de pergunta dos magos (“Onde está o rei dos judeus que acabou de nascer?”). Herodes estava reinando de forma ilegítima depois de várias brigas e muitas mortes (no período que conhecemos como interbíblico entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento), além de não ser da casa real de Davi. Com a notícia de que há um novo rei, que acabou de nascer e que, obviamente, não é seu filho, o desespero bate na face de Herodes. Veja que o verso 2 também fala sobre a estrela no oriente: se foi realmente um cometa, o presságio do fim do rei Herodes e o início do (possível) trono de Davi era muito forte.

Em conclusão: a Estrela de Belém poderia ser um cometa passando perto da Terra, sendo visível com uma bela calda e, talvez, com uma coloração diferente dos objetos celeste? De um ponto de vista astronômico, é coerente: os magos tinham muito conhecimento interpretativo da vida humana utilizando os fenômenos celestes (astrologia) e o desespero de Herodes é coincidente com a mensagem que um cometa poderia passar (há diversos outros casos na história e certamente ele conhecia-os) sobre mudança de poder político.

Além de tudo isso há diversos outros detalhes que não explorei. Deixarei na sessão Sugestão de leitura diversos outros materiais, como livros e artigos, para complementar essa ideia de cometa sendo a Estrela de Belém no nascimento do Salvador Jesus Cristo.

Posição pessoal

Repetirei o mesmo parágrafo que citei na coluna anterior sobre minha posição pessoal.

Apenas para deixar destacado que na primeira coluna do CosmoTeo dei algumas características pessoais. Ou seja, sou cristão, trinitário, reformado e não sou cristão liberal. Subscrevo, de forma histórica, a Confissão de Fé Batista de 1689 (que é documento da igreja onde sou membro, Igreja Batista da Graça) e o Pacto de Lausanne (que é documento da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência, onde também sou membro e exerço algumas funções). É claro que os textos escritos no CosmoTeo são de minha autoria (digito, corrijo e edito todos) e refletem apenas a minha visão, que pode ou não ser compartilhada com outras pessoas.

Ferramentas utilizadas

O texto bíblico em português que utilizei é a versão Almeida Fiel Corrigida, como todo texto que utilizo no CosmoTeo (pode ser encontrada, online, aqui). Para as simulações astronômicas tenho em mãos o software Stellarium na versão 0.20.3, que pode ser adquirido gratuitamente aqui.

Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos.

Mateus 2:16

Só isso?! Sim! Mas, ficou em dúvida, quer perguntar algo, deixar algum comentário ou sugerir algum tema, deixe abaixo! Ficarei feliz em te responder, seja nos comentários ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • Há muito mais detalhes envolvendo esse fenômeno que pode ser no excelente livro The Great Christ Comet: revealing the true star of Bethlehem, por Colin R. Nicholl, editora Crossway. Este livro traz outros detalhes sobre outras hipóteses, inclusive da conjunção planetária, e tem endosso de J. P. Moreland (que trabalha com filosofia e teologia com William Lane Craig) e Colin Humphreys, que também o citei na coluna;
  • Artigo do Colin Humphreys da revista Science and Christian Belief: aqui;
  • Outro excelente artigo do Colin Humphreys, agora na Royal Astronomical Society, falando sobre a Estrela de Belém, de 1991: aqui;
  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Livro Astronomia e astrofísica, por S. O. Kepler e Maria de Fátima Saraiva. Este livro é disponibilizado no próprio site dos autores, que são professores da UFRGS. É um excelente material de consulta: http://astro.if.ufrgs.br/livro.pdf.
Pintura A estrela de Belém, por Edward Burne-Jones e Henry Payne.
Fonte: http://news.bbc.co.uk/local/birmingham/hi/people_and_places/newsid_8412000/8412829.stm

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *