Dilúvio – os abalos da Terra: Gênesis é documento antigo

E houve chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites.

Gênesis 7:12

Hoje começarei mais uma nova série: Dilúvio – os abalos da Terra. Nesta série pretendo dar um panorama sobre aquilo que chamamos de dilúvio bíblico, ou seja, o que está relatado entre os capítulos 6 e 9 de Gênesis. Explorarei alguns relatos em textos paralelos ou extrabíblicos. Também darei um panorama “científico” do dilúvio, ou seja, a possibilidade física de se ter algo como é relatado no texto bíblico e em outras culturas, tanto do AOP (Antigo Oriente Próximo) quanto em outras regiões do planeta.

Um parêntese antes de continuar. Tenho podcast e canal do YouTube do CosmoTeo. Lá o conteúdo é com outro enfoque, diferente daqui. No momento que escrevo esta coluna estou gravando uma série também sobre dilúvio, mas com outro objetivo. Caso queira assistir (no YouTube) ou ouvir o podcast: YouTube é aqui e o podcast, você pode ouvir no seu agregador preferido (Spotify etc) ou diretamente no Anchor).

Muita coisa sobre o texto bíblico e que repetirei aqui, com outro enfoque, que já trabalhei está na série As Origens. Caso você ainda não tenha lido, não deixe de ver. O principal ponto que quero enfatizar aqui e que será muito importante para o nosso entendimento, primeiramente, do texto bíblico do dilúvio é que o livro de Gênesis é um documento antigo.

Antiguidade, que me refiro aqui, é em vários sentidos. O primeiro deles é, obviamente, o tempo. Sem entrar em discussões sobre autoria e edição do AT (Antigo Testamento), mais especificamente o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), vamos colocar o texto do dilúvio, Gn (Gênesis) 6 – 9 na conta de Moisés e essa escrita, arredondando as contas, para o ano de 1.400 a.C. “Só isso” nos deixa distante, no tempo, cerca de 3.400 anos.

Vamos fazer um exercício simples para entender a temporalidade de Gn. A princípio, eu e você somos brasileiros, alfabetizados, sabemos ler e escrever muito bem em português. Vamos ler a carta de Pêro Vaz de Caminha: o original (foto) está neste link.


Primeira página da carta de Pêro Vaz de Caminha.
Fonte: https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4185836

A não ser que você seja um especialista nesse tipo de documento, nós dois entendemos qualquer tipo de coisa que está escrita nessas páginas. Agora, se eu te mostrar esse documento aqui neste link, você e eu teremos capacidade para ler e entender completamente. Este último link é da Fundação Biblioteca Nacional que “traduziu” a carta de Caminha para o “nosso português” atual.

Apenas para contextualizar: a carta de Pêro Vaz de Caminha é um documento escrito em 01 de maio de 1.500 relatando ao rei D. Manuel, de Portugal, sobre o descobrimento do Brasil pela esquadra de Pedro Álvares Cabral dias antes. A carta está escrita em português, em letra à mão. Já o link em .pdf da Fundação Biblioteca Nacional também está escrito em português, mas digitado. A diferença entre os 2 documentos, em termos de escrita ou de “forma de leitura”, é de 500 anos. Veja que em apenas 500 anos, desconsiderando a forma escrita, o português mudou de tal forma que um falante nativo de português é incapaz de ler algo escrito em português com séculos de passagem de tempo.

Agora, imagina o texto bíblico de Gn: escrito há 3.500 anos, em um local que não é o Brasil ou Ocidente, em um idioma que não existe mais (hebraico de hoje não é nem o hebraico da época de Cristo! É uma espécie de paleohebraico, considerando a escrita do séc. IV a.C.) e em uma cultura e forma de pensar completamente diferente.

Um outro exemplo simples. Suponha que você veja uma estrela cadente e peça para que eu te explique o que é isso. Com minha cabeça de cientista, de físico do séc. XXI e com formação na cultura ocidental, descreverei os fenômenos físicos relacionados a esse evento: é um asteroide de pequeno porte que adentrou a atmosfera da Terra, por não ter massa o suficiente e devido ao atrito dele com o ar, incandesceu-se de tal forma que se apresenta como um efeito ótico luminoso visível por um tempo curtíssimo, “riscando” o céu. O que fiz foi apenas uma descrição do fenômeno, inclusive, com possibilidade que você mesmo investigue, confira se isso está correto etc.

Agora, peça para que Moisés, que está no meio do deserto do Sinai, saindo do Egito, com a formação cultural egípcia, no séc. XVI a.C., explique o que é estrela cadente. Para começar, ele nem sabe o que é essa expressão. Mas, considere que ele também tenha visto, com os olhos dele, o fenômeno, e ele vai te explicar. A explicação dele será em um formato de narrativa mito-poética. O que significa isso?

Narrativa é um conjunto de palavras em um certo ordenamento. Aqui, o ordenamento que Moisés fará é em um estilo de poesia, uma construção com poemas. Só que os poemas que ele escreverá não são do mesmo tipo ou estilo dos poemas que Mário de Andrade ou qualquer outro poeta brasileiro tenha escrito no séc. XX. Não há uma estrutura, no “papel” de verso debaixo de verso, com rima: a poesia que Moisés escreve é tipo “texto corrido”, como estou fazendo aqui, em hebraico e cheio de figuras de linguagem. Só que em hebraico (vamos considerar que seja em hebraico e não em um idioma que nem conhecemos. E mais: nem foi escrito, foi de forma oral!).

Um exemplo gráfico. Abaixo está o mesmo verso que coloquei no início, Gn 7:17, da versão Westminster Leningrad Codex e que você pode achar gratuitamente no link Biblia Online:

וַיָּבֹא נֹחַ וּבָנָיו וְאִשְׁתֹּו וּנְשֵׁי־בָנָיו אִתֹּו אֶל־הַתֵּבָה מִפְּנֵי מֵי הַמַּבּוּל׃

Gênesis 7:7

Não sei você, mas eu não sei hebraico o suficiente para ler, fluente, esse verso. Mas esse texto está em formato de poema, lá no original. Só que em hebraico e “mais fácil”, que é com os sinais massoréticos (esses pontinhos e tracinhos nas letras).

Além da questão poética ou do formato em poema, a outra parte da narrativa é a questão do mito. Mito não é uma história inventada; aqui utilizo a expressão de forma mais acadêmica. Em linhas gerais, mito é uma narrativa para dar sentido à realidade.

Voltando à questão sobre como Moisés explicaria o evento meteoro (estrela cadente). O que ele faria seria contar uma história: aconteceu que fulano estava em tal lugar, fazendo tal coisa, olhou para cima e viu isso e aquilo. Ou seja, ele vai narrar uma história. Mas isso não significa que tal história não aconteceu, em termos históricos. Significa que foi escrito um “mito” e que esse mito está dentro de um contexto mais amplo, uma espécie de “como se pensa e como se transmite pensamentos dentro dessa cultura”.

Um outro exemplo, bem mais perto de nós. Assista a qualquer filme de ação americano. Em algum momento, principalmente de clímax de encruzilhada, rua sem saída, o vilão sempre conta uma história que aconteceu com ele para explicar alguma ação que ele tomará. Veja que esse tipo de narrativa é semelhante, com as devidas proporções, a um mito. Não faz sentido, dentro do filme e da história do filme, perguntar se aquela narrativa aconteceu exatamente como o vilão contou, mas a narrativa dá sentido àquela realidade da história do filme. A narrativa pode até ter sido real, ter acontecido etc, mas não é relevante reconstruirmos o evento histórico da narrativa. Assim é a narrativa mítica.

Fechando com o paralelo: a nossa forma de pensar e transmitir pensamentos é usando descrições; os povos do AOP, incluindo Moisés, é contando história. Fazendo analogia com os filmes de Hollywood, não faz sentido perguntar se a narrativa do vilão é real (dentro do filme); também não faz sentido perguntar a Moisés se o dilúvio aconteceu exatamente como está descrito no texto bíblico. Em outras palavras, o texto bíblico, primariamente, não quer narrar um acontecimento real e histórico do dilúvio. Pode até ter existido uma ou mais catástrofes com água em vários locais e em várias épocas, onde vários povos diferentes narraram esse(s) acontecimento(s) de acordo com a sua cultura, incluindo Moisés; mas isso não é primário, ou seja, a intenção primeira não é narrar dilúvio ou catástrofe(s).

Acho que já temos um bom denominador em comum: o texto de Gênesis, principalmente o que estamos tratando (Gn 6 – 9) é um documento antigo. Além de todos os detalhes que demonstrei colocando o texto como antigo, outro fator é que há diversos livros, até mais antigos (em termos de escrita), que narram dilúvio ou catástrofe com água. Aqui estou colocando no singular, mas pode, perfeitamente, ser no plural: catástrofes ou dilúvios em diversas épocas e em diversos locais. O que vai conectar todos esses dilúvios é a forma de pensar, a estrutura mítica é semelhante.

Veja, disse que a estrutura mítica é semelhante no texto bíblico em comparação com outros textos do AOP; não disse que a narrativa é semelhante. A questão da forma ou da narrativa ser mito-poética é um dos fatores que ligam ou conectam a forma de escrever na antiguidade. Por exemplo, se alguém me perguntar como a Terra nasceu, responderei de uma forma muito semelhante que um japonês responderá no ano de 2025. As narrativas, descritivas e de fonte científica, poderão até ser diferentes, mas a forma de pensar entre um brasileiro do ano de 2022 é muito semelhante a um alemão (como Einstein, por exemplo) de 1927, que é semelhante a um russo (como Landau), de 1941 ou de um japonês lá no futuro, em 2025.

Teremos muito trabalho pela frente. Espero que você não naufrague nessa série.


E prevaleceram as águas sobre a terra cento e cinquenta dias.

Gênesis 7:24

Ficou em dúvida, quer perguntar algo ou fazer alguma crítica / sugestão? Deixe nos comentários abaixo e terei o prazer em te responder aqui ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Um dos livros que utilizarei, praticamente como base, é o O mundo perdido do dilúvio: teologia, mitologia e o debate sobre os dias que abalaram a Terra, por Tremper Longman III, John H. Walton e com contribuição de Stephen O. Moshier, editora Thomas Nelson Brasil.


Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

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