As Origens: o início de tudo

No princípio criou Deus o céu e a terra.

Gênesis 1:1

Finalmente, a coluna de hoje começará a falar sobre a formação (não é origem) do universo, da Terra e do homem. Farei várias minisséries dentro dessa série As Origens onde tratarei sobre universo, Terra, homem / humanidade, dilúvio e torre de Babel. Isso abrange praticamente todo o texto de Gênesis 1 a 11. Antes de começar a falar sobre a criação do universo, alguns prolegômenos (detalhes que você precisa saber de antemão).

Minha intenção, nas próximas colunas da série As Origens é tratar sobre a criação do universo, da Terra, da humanidade (Adão e Eva ou qualquer outro modelo), dilúvio e torre de Babel. A princípio, não tratarei do assunto queda / pecado nessa série (talvez trabalhe com isso em outras colunas à parte). Outro ponto é que, nessa série As Origens, focarei apenas nas questões literárias (bíblica e dos povos do AOP – Antigo Oriente Próximo); sobre a ciência da formação do universo e da Terra (astronomia, cosmologia, ciência planetária e astrofísicas), a série é outra com outro foco (veja aqui sobre a série Cosmologia). Em paralelo, ainda continuarei falando sobre literatura do AOP: Enuma Elish, Gilgamesh, Atrahasis etc. Por último, a base bibliográfica principal que estou utilizando é John Walton e Tremper Longman III; todos os livros e textos estarão no fim de cada coluna na sugestão de leitura. Claro, posso colocar um pouco de minhas reflexões pessoais sobre esses assuntos, mas todas estarão influenciadas e por essa bibliografia.

Começando do começo, literalmente: o texto bíblico, a nossa Bíblia inspirada, inerrante e Palavra de Deus, se abre com a expressão No princípio criou Deus o céu e a terra. Como já sabemos, não há intenção alguma por parte de Moisés, o escritor original, repassar conhecimento ou revelação científica. John Walton e D. Brent Sandy, no belíssimo livro The lost world of Scripture (veja mais detalhes na sugestão de leitura) coloca uma sentença, na proposição 4 (The Bible contains no new revelation about the workings and understanding of the material World): “Agreement on this point should lead to the inevitable next conclusion (though it often does not), that is, that there is no new scientific revelation in the Bible. By this we mean that no statements in the Bible offered the original audience new insight into how the material world regularly works or how the naturalistic cause-and-effect system operates. We need to affirm this both in terms of hermeneutical theory and in terms of what we actually find in the Bible”. Em tradução livre:

De acordo sobre esse ponto deve levar à uma próxima conclusão inevitável (embora muitas vezes não o seja assim) que é: não há nenhuma revelação científica nova Bíblia. Com isso queremos dizer que nenhuma declaração na Bíblia ofereceu ao seu público original uma nova introspecção sobre como o mundo material funciona regularmente ou como os sistemas naturais de causa e efeito funcionam. Precisamos afirmar isto tanto em termos da teoria hermenêutica quanto em termos do que realmente encontramos na Bíblia

Talvez a tradução, feita por mim de forma livre e sem muita técnica, não está tão clara quanto o original em inglês. Parafraseando: não há ciência na Bíblia, Deus não revelou processos físicos de como Ele fez o universo ou qualquer outro tipo de temática científica. A coisa é simples e direta assim.

Sei que a nossa curiosidade é muito grande, há diversas correntes nas visões cristãs sobre as origens que colocam concordismos de todos os tipos querendo adequar a ciência na Bíblia e vice versa. Sei também que parece que o texto bíblico quer nos revelar algo novo, que só agora entendemos com nossa ciência moderna, mas não é isso que o escritor original quis escrever para o destinatário original.

Outro detalhe a ser retirado, apenas do verso 1 do capítulo 1 de Gn, é que esse texto não é título ou descrição do que acontecerá no restante da narrativa. Esse tipo de concepção, agradável para vários teólogos concordistas, está mais para o que queremos do que realmente o texto propõe.

Um outro detalhe que, muito provavelmente, não agradará muitos cristãos, é que o verso 1 de Gn 1 não fala sobre a doutrina cristã da criação. Calma, não é nada de heresia. É que Moisés não tinha a menor intenção de falar sobre doutrina da criação: seu propósito é simples e é o que está descrito, ou seja, apresentar o Deus que tirou Seu povo da terra do Egito como criador do universo (expressão céu e terra).

Adentrando um pouco mais na cultura do escritor original, o que ele pensava sobre a constituição geofísica ou cosmológica do universo / Terra é a figura abaixo:

comentei sobre essa imagem na série sobre Terra plana. Acredito que todos os escritores bíblicos, do Antigo Testamento (AT) e do Novo Testamento (NT) tinham a mesma concepção de universo / Terra: geocentrismo, Terra plana, colunas de sustentação da Terra, firmamento / expansão, águas acima do firmamento que desciam pelas comportas do céu (floodgates = comportas) em formato de chuvas e o Sheol (é apenas o local onde os mortos “moravam” depois do sepultamento). A figura retrata, quase que com perfeição, o pensamento bíblico sobre universo e Terra.

Mas é óbvio que a Bíblia não ensina que a Terra é plana ou esférica, que existe domo ou espaço sideral ou qualquer outro tipo de conceito científico ou pseudocientífico moderno. As nossas opiniões e nossos achismos científicos pouco importam para o texto bíblico: ela apresenta o que os escritores tinham dentro de suas próprias culturas e Deus, em sua revelação inspirativa (e não psicográfica), deu aos seus servos a Sua Palavra escrita (que não foi ditada).

Por último, quero mencionar o caráter apologético que o texto bíblico abre justamente em Gn 1. Veremos em outras colunas futuras que Deus não é gerado do caos como os outros deuses e divindades do AOP. Também, o mundo natural faz parte da criação de Deus no sentido de objeto ou atuação divina, e não no sentido de essência da divindade (é que, para os povos do AOP, o mundo tinha uma essência ou quase que uma extensão “corporal” dos deuses). Em resumo, o texto de Gn 1 é uma abertura apologética demonstrativa de que há apenas 1 Deus superior a todas as outras mitologias. Nas palavras de Antonio Ivemar, em sua dissertação “A ‘influência’ do mito babilônico da criação, Enuma Elish, em Gênesis 1,1-2,4a”, na p. 53:

Destacamos apenas o texto de (Gn 1,1-2,4a) porque esse texto diz respeito à criação que é o assunto que está sendo abordado em nosso trabalho dissertativo, ou seja, é o foco que norteia nossa pesquisa. A nosso ver, esse texto tem a função de deslegitimar o mito oficial da criação segundo os babilônicos.

Em outras palavras, a narrativa mítica de Gn 1 é uma apologética de Israel com função de mostrar uma cosmovisão genuinamente cristã aos povos do AOP. Sei que pareceu estranho demais, frase cheia de anacronismos (expressões modernas colocadas em um momento que não existia tais conceitos), mas é a forma como nós, cristãos, olhamos para dentro da mentalidade de Moisés. Mesmo ele não sabendo quem é Cristo, o que é apologética de uma narrativa mítica frente a outra narrativa mítica oficial (no caso, a babilônica), isso parece muito com o que Deus poderia ter se revelado sem destruir sua cultura do mundo antigo.

A coluna de hoje, apesar de ser bem mais curta que as outras, acho que está muito densa em termos de reflexão. Para finalizar, deixo algumas frases da mesma dissertação do Antonio Ivemar (detalhes estão nas sugestões de leitura), na p. 53:

Na Bíblia, encontramos narrativas míticas que querem ser a tentativa de fortalecer o imaginário coletivo de uma sociedade já estabelecida referente à sua origem divina.

Enquanto que os mitos nos demais povos têm um caráter politeísta, em Israel, esses mitos advindos de outras culturas, recebem um caráter monoteísta. Deus assume, na narração bíblica de cunho mítico, atitudes próprias dos seres humanos e intervém falando com eles.

Não perca a sua fé e nem se abale com essas reflexões. Lembre-se das palavras do salmista:

O Senhor tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo.

Salmos 103:19

Ficou em dúvida, quer perguntar algo ou fazer alguma crítica / sugestão? Deixe nos comentários abaixo e terei o prazer em te responder aqui ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • Estou fazendo uma série de estudos, curtos de 15 min cada, no Instagram da igreja ElShaddai, sobre a temática criação do mundo. O foco é muito simples, apenas no texto bíblico, e o público são pessoas da igreja que não tem grandes conhecimentos sobre literatura bíblica ou do AOP. A série, que ainda é atualizada, está toda nos stories https://www.instagram.com/stories/highlights/17870473496498645/;
  • Dissertação A “influência do mito babilônico da criação, Enuma Elish, em Gênesis 1,1 – 2,4a, por Antonio Ivemar da Silva Pontes. Link: http://tede2.unicap.br:8080/handle/tede/886;
  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • The lost world of Scripture: ancient literary culture and biblical authority, por John Walto e D. Brent Sandy, editora IterVarsity Press;
  • The lost world of Genesis one: ancient cosmology and the origins debate, por John Walton, editora InterVasity Press. A série completa, The Lost World Series, pode ser vista no site https://www.ivpress.com/the-lost-world-series;
  • O mundo perdido do dilúvio: teologia, mitologia e o debate sobre os dias que abalaram a Terra, por Tremper Longman III e John Walton com contribuição de Stephen Moshier, editora Thomas Nelson Brasil;
  • O mundo perdido de Adão e Eva: o debate sobre a origem da humanidade e a leitura de Gênesis, por John Walton com participação de N. T. Wright, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Como Ler Gênesis, por Tremper Longman III, editora Vida Nova;
  • Os outros da Bíblia: história, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino, por Andre Daniel Reinke, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com o BT Books. Livro simplesmente essencial para o entendimento, de forma panorâmica, dos povos do AOP;
  • Comentário bíblico Atos Antigo Testamento, por John Walton, Victor Mathews e Mark Chavalas, editora Atos;
  • Biblia Hebraica Stuttgartensia 5ª ed: este é o texto, com aparato crítico (comentários sobre a composição, a partir dos manuscritos mais perto dos originais), do AT;
  • Torá: a lei de Moisés, edição bilíngue (hebraico e português), editora Sefer: este livro contém todo o Pentateuco, comentários e explicações (em rodapé), além de outros textos judaicos (como poemas e músicas).
Concepção do cosmos descrito em Gênesis: Terra plana, firmamento e luminares no firmamento
Fonte: https://edward-t-babinski.blogspot.com/2010/12/triablogues-100-errors-error-1-quoting.html
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

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