As Origens: a letra mata

O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.

2 Coríntios 3:6

Na coluna passada dessa série As Origens trabalhei um pouco sobre a ideia de que a ciência não está na Bíblia. Melhor dizendo: o texto bíblico em nada diz sobre ciência ou sacia qualquer curiosidade sobre processos físicos, como criação do universo, da Terra ou do homem (sim! A Bíblia não fala sobre a origem biológica do homem! Veremos com mais detalhes esse assunto futuramente).

Já nesse texto quero fechar uma outra brecha que, talvez, tenha sido aberta na coluna anterior: se a Bíblia não diz nada em questões científicas, então o ideal é lê-la de forma literal, ao pé da letra, exatamente como o texto está escrito e puxar o que for de ciência de lá; se a ciência concordar com essa leitura, tudo bem, se não, a ciência está errada. Certo? Não, e para isto estar minimamente errado, tem que melhorar muito!

Se você já é um leitor assíduo da coluna CosmoTeo já tem ideia do que quero dizer. Aliás, a própria série As Origens já tem um caráter bastante revelador de como ler a o texto bíblico. Fazendo generalização por minha conta e risco, não somente o texto de Gn 1 a 11 mas todo o texto sagrado. Um exemplo muito simples é o verso 2 de Gn 1:

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Agora, observe um outro trecho em Isaías:

Eu fiz a terra, e criei nela o homem; eu o fiz; as minhas mãos estenderam os céus, e a todos os seus exércitos dei as minhas ordens.

Isaías 45:12

E, no mesmo capítulo,

Porque assim diz o Senhor que tem criado os céus, o Deus que formou a terra, e a fez; ele a confirmou, não a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada: Eu sou o Senhor e não há outro.

Isaías 45:18

Vamos colocar mais um profeta, Jeremias:

Observei a terra, e eis que era sem forma e vazia; também os céus, e não tinham a sua luz.

Jeremias 4:23

Poderia citar milhões de outros versos, livros inteiros da Bíblia, tanto do Antigo Testamento (AT) como do Novo Testamento (NT). Mas, vamos nos prender apenas nesses 4. Veja que Gn cita que a Terra era sem forma e vazia. Já em Isaías vai mencionar que Ele fez a Terra e não a criou vazia. Vem o profeta Jeremias e dá uma pitada de miscelânea (bagunça): a Terra está sem forma e vazia e sem luz (no contexto profético que ele está trabalhando).

Onde quero chegar com tudo isso? “Parece que é simples entender: só arrumar os textos de forma lógica, ver o contexto de cada texto profético e pronto: Deus criou a Terra sem forma e vazia, de forma instantânea como diz o verso 1 de Gn 1 pronto!”. Agora, veja onde está a confusão de tudo isso: em algumas passagens, como Gn 1, faço uma leitura literal, já em outros textos como proféticos, ai tenho que ver o contexto da profecia, conteúdo etc. A dúvida que proponho é: por qual motivo não fazer isso para todo o texto sagrado?!

Quando faço isso (aplicar o rio cultural e interpretar, exegeticamente, o contexto, o escritor, a mensagem e o destinatário originais) os problemas de choque com a ciência desaparecem. Melhor: nem surgem. Como mencionei na coluna anterior não há ciência sendo ensinada na Bíblia; fazendo uma correta exegese bíblica, não há conflito com teoria do Big Bang, teoria da evolução, nascimento da Terra a partir  de uma nuvem protoplanetária advinda de explosões de supernovas anteriores e nem problema com ancestralidade biológica humana com outros seres vivos.

Acho que o problema está bem colocado: não devemos ler o texto nem de forma científica (teologização da ciência ou cientifização da teologia) e nem de forma literal (ao pé da letra). E as soluções? Começando com uma boa leitura do texto bíblico em seu formato literário adequado: escritor, mensagem, contexto histórico, cultural, econômico, social, época e destinatário originais. Além disso, uma boa pesquisa no gênero literário dará uma boa adiantada nas questões onde esses dados podem ser escassos. Se tudo isso for muito difícil de se conseguir, uma comparação do texto (com as palavras no original onde o texto foi escrito) com outro pode dar indicativos sobre figuras de linguagem.

Feito tudo isso, é claro que nossa curiosidade não será saciada. Com isso bem feito, descobriremos o propósito original do texto, o que os leitores naquela época entenderam (sim, eles compreenderam perfeitamente o texto; nós, no futuro deles, é que temos dificuldades exegéticas devido a distância cultural com eles). Mas sempre queremos saber mais: os processos físicos de criação do universo, da Terra, do homem, fenômenos não claros como o que aconteceu no nascimento de Jesus ou na batalha em Josué. Para isso, vamos para o próximo passo.

Estudar ciência. Não digo fazer uma faculdade de Física ou alguma outra de ciências naturais (química, biologia etc); se puder, recomendo muito. Mas, digo na questão de fazer pesquisa. Assim como estudamos teologia através de bons comentários bíblicos, léxicos, dicionários, estudamos os especialistas em teologia sistemática, bíblica ou histórica, devemos estudar ciência: lendo bons livros de divulgação científica, lendo os artigos publicados e conversando com cientistas (de preferência, cristãos; no site da ABC² você pode ter acesso a qualquer cientista cristão de qualquer área ou me procurar que redireciono-o). Talvez a tarefa de pesquisa científica não seja tão simples para você ou seja muito técnica (são áreas especializadas), então o caminho natural é procurar quem é da área.

“Mas sempre terei que fazer isso? Deus não fala comigo na Sua Palavra?”. Sim, Deus fala contigo na Sua Palavra, a mensagem transcende ao contexto cultural e chega até os nossos dias modernos. Mas, devemos ter o máximo de cuidado para não criar interpretações que o texto não quer dizer, colocar a nossa visão nas Escrituras ou, até mesmo, inventar heresias.

Sei que o trabalho pode ser penoso, difícil e até mesmo complicado. Mas, como nossa fé cristã devemos ter o máximo de cuidado e zelo. Cristo morreu e ressuscitou por nós; o serviço mais pesado já foi feito por Ele. O mínimo que podemos fazer é dedicar um pouco de esforço mental para a Sua Palavra. Novamente, não digo para você, caro leitor do CosmoTeo, ser um teólogo profissional ou um cientista cosmólogo (ou os 2!). O que desejo a você é que procure bons estudos, boa informação, mantenha a fé e tire dúvidas com quem conhece sobre o problema que você está estudando.

Material científico para estudar a Bíblia, temos muito. Teológico, também. Finalizarei essa breve coluna com uma citação do livro Teologia pura e simples, do biofísico e teólogo, prof. Alister McGrath, na p. 32. Ele dá um bom caminho de como podemos estudar melhor a teologia a partir da tradição da igreja. E eu amplio essa citação também para a ciência:

Entretanto, para nós que vivemos no século 21, a tradição é mais do que isso: ela nos garante o acesso ao baú de tesouros de dois mil anos de reflexão sobre o que significa ser um cristão, como melhor compreender e comunicar a fé e como viver de modo cristão


Ficou em dúvida, quer perguntar algo ou fazer alguma crítica / sugestão? Deixe nos comentários abaixo e terei o prazer em te responder aqui ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • The lost world of Genesis one: ancient cosmology and the origins debate, por John Walton, editora InterVasity Press. A série completa, The Lost World Series, pode ser vista no site https://www.ivpress.com/the-lost-world-series;
  • O mundo perdido do dilúvio: teologia, mitologia e o debate sobre os dias que abalaram a Terra, por Tremper Longman III e John Walton com contribuição de Stephen Moshier, editora Thomas Nelson Brasil;
  • O mundo perdido de Adão e Eva: o debate sobre a origem da humanidade e a leitura de Gênesis, por John Walton com participação de N. T. Wright, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Como Ler Gênesis, por Tremper Longman III, editora Vida Nova;
  • Os outros da Bíblia: história, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino, por Andre Daniel Reinke, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com o BT Books. Livro simplesmente essencial para o entendimento, de forma panorâmica, dos povos do AOP;
  • Comentário bíblico Atos Antigo Testamento, por John Walton, Victor Mathews e Mark Chavalas, editora Atos;
  • Biblia Hebraica Stuttgartensia 5ª ed: este é o texto, com aparato crítico (comentários sobre a composição, a partir dos manuscritos mais perto dos originais), do AT;
  • Torá: a lei de Moisés, edição bilíngue (hebraico e português), editora Sefer: este livro contém todo o Pentateuco, comentários e explicações (em rodapé), além de outros textos judaicos (como poemas e músicas).
O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (2 Coríntios 3:6). Versículo que ainda é usado como autoridade bíblica com o estudo teológico ou até mesmo científico
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

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