O Juízo final. Gravura de Pierre de Jode, 1615. Museu do Louvre, Paris, França.

Apocalipse moderno: introdução ao caos

E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas.

Mateus 24:29

E, havendo aberto o sexto selo, olhei, e eis que houve um grande tremor de terra; e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue;

E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte.

Apocalípse 6:12, 13

Quem lê estes versos, o livro de Daniel, o de Ezequiel e até mesmo o de Apocalipse, de forma direta, sem interpretação, pode causar muitas noites de insônia ou de pavor. Tenho um parente que não lê o livro de Apocalipse por medo. No momento que esta coluna foi escrita o mundo está passando por uma pandemia e, os efeitos psicológicos (fora os de saúde relacionados a respiração) podem ser tão trágicos quanto o mesmo efeito de leitura de textos apocalípticos.

Minha intenção, neste momento, é falar de eventos naturais que podem ser interpretados (erroneamente) como causados pelas referências bíblicas. A ideia é fazer uma série de textos com objetivo de explicar esses fenômenos, localizá-los dentro da criação de Deus e, se possível, dar um ânimo ou alento no sentido de tirar o “foco apocalíptico” e apreciar, ainda mais, “a obra das suas mãos (Sl 19:1).

Nesta introdução quero trabalhar alguns conceitos e delimitar alguns pontos que mostrarei nas colunas seguintes. Começando com o que não descreverei: interpretação profética / apocalíptica, questões de saúde e o tradicional problema do mal. Há uma vasta informação bibliográfica sobre interpretação bíblica nas áreas de literatura e o gênero apocalíptico e escatologia (com suas diversas escolas de pensamento); deixarei algumas referências que já li e gosto de consultar sobre essa temática. Comentários sobre saúde, de forma geral, também há muita informação e, o meu conselho, é procurar pessoas especializadas. Dentro da ABC2 há diversos profissionais (pesquisadores e professores) que trabalham especificamente com esse assunto e que, obviamente, sou alheio. Com relação ao grande tema sobre o problema do mal, a pesquisa teológica é vastíssima, mas já deixo uma recomendação daqui mesmo: Francirley já tem um texto sobre e, pelas conversas de bastidores (segredo!), está saindo uma série! Não perca e acompanhe o primeiro texto aqui.

O que delinearei nesse meio caótico é um caminho mais físico, mais fenomenológico. Dividi, basicamente, os eventos que relatarei em três áreas: Terra, sistema solar e universo. Com relação ao nosso planeta, há vários eventos que são violentos a nossa sobrevivência, infelizmente muitas pessoas perdem a vida (jamais isso é / pode ser minimizado) mas são fenômenos naturais. Cito alguns: vulcanismo, terremoto, maremoto / tsunami, barulhos “estranhos” vindo do céu, tecnologia (por exemplo: 5G), pestes (por exemplo: epidemia e pandemia) e eventos climáticos extremos (por exemplo: altas / baixas temperaturas; tempestades, furacões e ciclones com poder de destruição tanto em bens materiais quanto em vida humana). Indo para o nosso quintal astronômico: campo magnético da Terra e suas relações (anomalia do Atlântico do Sul, vento solar e inversão de polos magnéticos). Outras questões classifico como cosmológicas: “fim” de calendários (Maia, por exemplo), “invasão” de extraterrestres e fenômenos relacionados a morte de estrelas (supernova) e emissão de jatos de radiação (gamma-ray bursts (GRB) ou jatos de raios gama).

Observe que, apesar de todos estes assuntos poderem ser relacionados com alguma interpretação bíblica de forma forçada (“entendo o que quero entender da Bíblia que está no meu idioma materno”), nenhum deles está descrito na Palavra de Deus. E o motivo é muito simples: a Bíblia não é um texto de ciência, ela não quer dar informações ou detalhes científicos e, muito menos, satisfazer curiosidades futurísticas. O ponto de partida que sempre tomo é: a Bíblia é (ela não contém; é) a Palavra de Deus, inerrante e sem falhas. É obvio que ela é descrita em um contexto ou rio cultural e, para tal, é necessário fazer uma exegese correta, responsável e descente. Exegese é, em termos gerais, entender o texto bíblico dentro do seu contexto e isso perpassa pelo escritor original e sua cultura / localização / idioma originais, pelo destinatário original e sua cultura / localização / idioma originais, pela mensagem e seu contexto original. Parafraseando o professor de Antigo Testamento, John Walton, a Bíblia foi escrita para nós mas ela não é destinada a nós. Ou seja, há uma mensagem original a ser extraída e entendida (exegese) e há uma mensagem que transcende o rio cultural (hermenêutica), passa por todos os séculos e regiões.

Resumindo: tratarei de fenômenos naturais e físicos. Já dando spoiler lá do final: nenhum desses eventos é o “apocalipse”, nada vai destruir a Terra, explodir o planeta ou qualquer tipo de interpretação literal do livro de Apocalipse. Mais: Deus, o Criador e o que sustenta toda a criação, universo e vida humana, não está alheio ao que acontece no pálido ponto azul (palavras do saudoso astrônomo Carl Sagan) ou ao universo inteiro. Seus decretos divinos não são revogáveis e Suas leis físicas não são “desativadas”.

Finalizando com o texto de Isaías, que deveria ser o nosso texto áureo de todos os dias:

Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.

Porque, assim como desce a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir, e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come,

Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.

Isaías 55:9 – 11

Só isso?! Sim! Mas, ficou em dúvida, quer perguntar algo, deixar algum comentário ou sugerir algum tema, deixe abaixo! Ficarei feliz em te responder, seja nos comentários ou em algum artigo específico.

  • Entendes o que lês?: um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica, de Gordon Fee e Douglas Stuart. 3ª edição, editora Vida Nova;
  • Introdução à hermenêutica reformada: correntes históricas, pressuposições, princípios e métodos linguísticos, de Paulo Anglada. Editora Knox Publicações;
  • Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual, de Franklin Ferreira e Alan Myatt. Editora Vida Nova;
  • Site https://spacetoday.com.br/. É, praticamente, um jornal diário sobre astronomia e cosmologia, incluindo o canal no YouTube.
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

O Juízo final. Gravura de Pierre de Jode, 1615. Museu do Louvre, Paris, França.
Foto da capa: O Juízo final, gravura de Pierre de Jode, 1615. Museu do Louvre, Paris, França.
Fonte: http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=1091

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