Apocalipse moderno: chuva de estrelas no fim dos tempos

E as estrelas cairão do céu, e as forças que estão nos céus serão abaladas. Mc 13:25

E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte. Ap 6:13


O livro de Apocalipse é um texto fascinante! Para nós, cristãos, a Bíblia é a Palavra de Deus: como cristão da tradição reformada, rejeitamos qualquer tentativa de rebaixar a Bíblia como algo que “contém” a Palavra de Deus. Indo por um outro caminho, mesmo que você não seja cristão ou nunca leu o último livro escrito pelo apóstolo João, te convido a apreciar esse texto, mesmo em português, e ver a riqueza literária que ele tem: gênero apocalíptico, muita hipérbole, simbologia própria do pensamento judaico, profecia, cartas, dentre diversos outros elementos enriquecedores.

O que é gênero apocalíptico? Precisaríamos de um outro estudo apenas com essa temática. Mas, para dar uma resposta curta: é um modelo literário que floresceu muito na comunidade judaica entre os séculos II a.C. e II d.C. Claro que podemos encontrar esse gênero, em maior ou menor grau, nos livros proféticos do Antigo Testamento, como Isaías, Ezequiel e Daniel. Não há apenas um único tipo de gênero apocalíptico, mas todos compartilham algumas características: literatura profética, conteúdo em formato de visões e sonhos, as figuras de linguagem sempre aludem a algo mais fantasioso e não a realidade em si (a descrição não é de fatos históricos futuros). Por exemplo, pegue as diversas descrições no livro de Apocalipse: dragão com várias cabeças, besta que sai do mar e, claro, estrelas caindo do céu. A forma de fazer exegese em literatura bíblica apocalíptica (e não só do livro de Apocalipse) vai nos mostrar uma riqueza de detalhes, porém não são fatos históricos.

Sobre profecia, por exemplo, há diversos elementos que são muito diferentes do que pensamos, modernamente: profecia, no sentido apocalíptico, não é algo determinístico no sentido de que vai acontecer um evento de forma individual. Como o assunto de hoje não é sobre a literatura apocalíptica e, muito menos, sobre o livro de Apocalipse, deixo de recomendação o livro de Fee e Stuart: Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica. No final, deixarei a referência completa.

Começando pela parte mais “fácil”. Os textos de Marcos e Apocalipse, nos versos acima, citam a mesma palavra estrela, do grego αστερες. A tradução é exatamente como está acima e seu significado vem desde a cultura grega e que conhecemos perfeitamente: aquele pontinho no céu que é visto todo dia a noite. É claro que nem João e nem Cristo, em seus períodos de vivência por aqui tinham a noção de que estrela é o que entendemos como um grande corpo constituído por elementos químicos (que pode chegar até o ferro) e que faz fusão nuclear. Este conceito, extremamente resumido, já é o suficiente para vermos a destruição (ou não?) da Terra. Em outra oportunidade detalharei mais sobre a astrofísica das estrelas, seu nascimento, sua evolução, sua morte e as consequências para a Terra. Lembrando: o Sol é a estrela mais perto da Terra, cerca de 150 milhões de km de distância, e o vemos durante o dia!

Em se tratando de corpos celestes como estrelas, não nos referimos sobre seu tamanho: o que vale é a massa. Por exemplo, a massa do Sol é de 1,9887973×1030 kg ou, em números: 1.988.797.300.000.000.000.000.000.000.000.000 kg. Comparando com a Terra, que é de apenas 5,973332×1024 kg (ou 5.973.320.000.000.000.000.000.000 kg), ele é bem maior. Claro que a gente pode falar de tamanhos (raios, por serem praticamente esféricos): o Sol tem um raio 696 mil km e a Terra, 6.378 km. Outro detalhe que precisamos ter em mente é que as estrelas que observamos (a olho nu) são, praticamente todas, maiores (tanto em massa quanto em tamanho) do que o Sol. Um exemplo bem visível no hemisfério sul é a estrela de Magalhães, que fica no Cruzeiro do Sul: sua massa é de, aproximadamente, 13 vezes a massa do Sol.

Simulação do céu de Brasília na data de 25 de julho de 2020 às 20:01 pelo software Stellarium versão 0.20.1 (versão livre). A estrela, destacada com sublinhado vermelho, é Acrux ou estrela de Magalhães. Mimosa e Gacrux, outras estrelas nominadas, estão na constelação Cruzeiro do Sul

Só com esses poucos detalhes físicos já é facilmente visto que os textos, com literatura apocalíptica, de Marcos e Apocalipse, não estão se referindo a queda de estrelas do tipo o Sol (maiores ou menores). Também, como alguns podem pensar e forçar o texto bíblico, as passagens não se referem a chuva de meteoros ou de meteoritos, nem de asteroides: esse tipo de conhecimento (origem dos meteoros / meteoritos associado com o nascimento do sistema solar) não era compreensível na época da escrita. A palavra meteoro, no grego, é μετέωρος e, até onde tenho conhecimento, esta expressão não se encontra nos textos apocalípticos bíblicos. Já escrevi referenciando os meteoros, meteoritos e asteroides mas detalharei, em outra oportunidade, estes objetos.

E o fim dos tempos? Vai ter chuva de meteoros, queda de asteroides ou algum outro evento astronômico para destruir a Terra?! Apesar de assistirmos várias chuvas de meteoros por ano (detritos de cometas que estão espalhados perto da órbita da Terra, como a de Leónidas, Perseidas, Eta Aquaridas, Oriônidas e Gemínidas) e de vez em quando passar um cometa ou um asteroide “perto” da Terra, não há indicativo de que a Terra será destruída.

Chuva de meteoros Leônidas em 2001.
Fonte: https://apod.nasa.gov/apod/ap151115.html
Chuva de meteoros Perseidas em agosto de 2004.
Fonte: https://apod.nasa.gov/apod/ap040820.html
 

O último grande evento que ajudou a extinguir os dinossauros foi um asteroide de aproximadamente 10 km de tamanho há 65 milhões de anos. Além do mais, há um centro de monitoramento de objetos que podem ser perigosos para a Terra: Center for NEO Studies, CNEOS, é uma área da NASA (agência espacial américa) que monitora e calcula órbitas de objetos próximos a Terra (Near-Earth Objects). Para ver mais detalhes sobre esse programa: https://cneos.jpl.nasa.gov/.

Cratera Chicxulub na península de Yucatán, México. Tem cerca de 200 km.
Fonte: https://pcty.com.mx/museo-de-ciencias/

Em resumo: não há indicação, no texto bíblico, de fim dos tempos por “chuva de estrelas”. Astronomicamente falando, é improvável, até este momento, ter um fenômeno catastrófico desta magnitude. Relembrando o texto de Jeremias onde Deus menciona a fidelidade e o cumprimento que Ele fez com Israel,

Assim diz o Senhor: Se a minha aliança com o dia e com a noite não permanecer, e eu não puser as ordenanças dos céus e da terra,

Também rejeitarei a descendência de Jacó, e de Davi, meu servo, para que não tome da sua descendência os que dominem sobre a descendência de Abraão, Isaque, e Jacó; porque removerei o seu cativeiro, e apiedar-me-ei deles.

Jeremias 33:25,26

Só isso?! Sim! Mas, ficou em dúvida, quer perguntar algo, deixar algum comentário ou sugerir algum tema, deixe abaixo! Ficarei feliz em te responder, seja nos comentários ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

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