Relação fé cristã e ciência: o exemplo do colunista da CosmoTeo

Acredito que Deus não diria algo sobre a Bíblia que contradissesse o que ele revela por meio do mundo criado. O conflito ocorre no âmbito da interpretação humana. Podemos estar errados em nossa interpretação da Bíblia ou errados em nossa interpretação científica da natureza (ou em ambos!).

O teste da fé: os cientistas também creem, p. 143

Deborah Haarsma, autora da citação acima, é uma grande astrofísica (área de pesquisa que aplica a física ao universo) e cristã. Atualmente ela é presidente do BioLogos, uma espécie de ABC² (Associação Brasileira de Cristãos na Ciência) americana, musicista, foi professora no Calvin College no Departamento de Física e Astronomia, publicou muitas pesquisas científicas, escreveu diversos livros e faz palestras relacionando fé cristã e ciência. Além do livro da citação acima, onde ela conta um pouco de sua trajetória, há um outro livro em português, A Origem: quatro visões cristãs sobre criação, evolução e design inteligente, onde comenta sobre o criacionismo evolutivo (ainda detalharei esta visão). Resumindo: uma grande cientista, e cristã, que não tem conflitos a resolver porque simplesmente não há conflito entre fé cristã e ciência.

Mas, na coluna de hoje, gostaria de contar um pouquinho sobre outro cientista com uma carreira muito menor do que a da Haarsma: este que vos escreve. Claro que não farei um grande relato biográfico da minha vida (que nem é tão extenso assim), mas mencionarei sobre como relaciono ou, melhor, como vivo uma vida que inclui estudos em teologia e Bíblia, de um lado da mesa, e teorias cosmológicas, do outro lado da mesma mesa.

Cristo me salvou quando ainda era uma criança de apenas 8 anos. Não nasci em um berço cristão. Em setembro de 1992, um pouco antes de completar 9 anos, frequentei a igreja Assembleia de Deus, ministério Madureira, em Ceres – GO. Por lá fiquei até junho de 2000, servindo ao Senhor de diversas formas: evangelismo de rua, fazendo programas de rádio, sonoplastia, pregando (por 2x) e dando aula na EBD para jovens. Quando ganhei minha primeira Bíblia no fim de 1992, li-a com uma fome que não fazia com outros livros. Como dizia minha professora de português, eu era um rato de biblioteca: li o máximo de livros que tinha disponível na época. Minha vida era na biblioteca pública da cidade, li toda a coleção da professora e devorava toda a biblioteca da escola. Em paralelo a tudo isso, assistia ao Curso de Teologia Paulo Leivas Macalão, junto com meu pai e outros pastores da igreja. Perturbava-os com material para ler (gentilmente me emprestavam seus livros de seminário) e não perdia um culto de doutrina (onde havia estudos bíblicos) e escola dominical. Ou seja, durante quase 8 anos e em uma fase de crescimento e formação intelectual, minha vida foi regada por Bíblia.

Voltando para o DF (nasci aqui, me mudei para Ceres e retornei em 2000), fui estudar na Escota Técnica de Brasília para cursar Informática Industrial; ainda estava no ensino médio. Durante o período de estágio em um ministério do governo federal, me deparei com um livro interessante (sim, devorei tudo o que podia da biblioteca do ministério). Foi em uma terça-feira de setembro de 2003, a tarde e chuvosa, que li o último parágrafo de um livro antigo que falava sobre mecânica quântica e Relatividade. O trecho dizia, mais ou menos, que não era possível casar a quântica com a Relatividade Geral (RG) e finalizava sem dar mais motivos. Até essa época, li muitas coisas sobre Relatividade, Einstein e quântica, obviamente sem entender a essência. Aliás, as colunas que escrevi aqui sobre física quântica e Relatividade, caso você tenha lido, terá muito mais conhecimento sobre essas áreas da física do que eu tinha nessa época.

A primeira pergunta que me veio, quando conclui o livro era: por quê? Qual o motivo de não ser possível casar a quântica com a Relatividade Geral? Claro que, como todo jovem sem conhecimento, mas com uma alta dose de curiosidade, me propus a ser um casamenteiro das 2 maiores áreas da física. Comecei a estudar com tudo o que tinha (nessa época comecei a ter acesso a internet, apesar de não ter computador em casa) e, novamente, as bibliotecas (da escola e algumas públicas do DF) se tornaram meus locais de busca para a aliança que faltava na física e que nem Einstein ou qualquer outro cientista depois dele até os dias atuais, tinha conseguido unificar.

Uma pequena pausa para explicar esse ponto de não união entre a quântica e a Relatividade Geral (tratarei sobre esse assunto de forma mais detalhada quando for conversar contigo sobre cosmologia quântica). A quântica trata do mundo micro, das partículas e moléculas. A Relatividade Geral, por outro lado, trata do macrocosmo, das grandes estruturas, do universo. Unificar a quântica com a RG quer dizer, a grosso modo, como a gravidade funciona na escala micro e como os efeitos quânticos afetam o universo principalmente em seu nascimento. O nascimento do universo, como veremos futuramente, envolve as menores escalas jamais imaginadas: o universo, com toda a sua massa (galáxias, estrelas, planetas, poeira e gases), era de um tamanho menor do que um próton; menor é maneira de dizer: o volume, onde toda a massa do universo está inserido, é zero. Essa coisa maluca, que tem densidade infinita (tente dividir qualquer número por números cada vez menores até perto de zero; depois, tente dividir o mesmo número por zero), é o que chamamos de singularidade cósmica. Como envolve coisas minúsculas, como volumes pequenos e tendendo a zero, e objetos com potência de se tornarem macros (toda a energia para se criar tudo o que temos no universo hoje já estava nesse “pequeno” volume), precisamos tanto da quântica quanto de uma teoria de gravitação, como a RG ou qualquer outra.

O problema é que, tanto na física como na RG, não trabalhamos com infinitos. Ou seja, no início do universo, a singularidade cósmica é um infinito: massa divido por um volume zero significa densidade infinita. Mas, isso não faz sentido: não existe massa infinita, tamanho infinito ou densidade infinita. Existe coisas muito grandes, números de galáxias inimaginavelmente grandes ou qualquer coisa do tipo, muito grande, que a mente não consegue imaginar. Contudo, tudo é uma quantidade finita. Quando vamos fazer contas em cosmologia quântica (que trata do início do universo) utilizando a quântica e a RG, aparece esses números infinitos: é o que chamamos que as equações explodem (em termos técnicos: aparecem assíntotas e as equações divergem). E como se resolve isso? Procurando soluções na RG, atuando com outras teorias de gravitação, mexendo na quântica ou encontrando alguma outra teoria que englobe o micro e o macrocosmo, de forma que se tenha uma clara ideia matemática, uma forma inteligível da manifestação da força gravitacional e contrapartidas observacionais e/ou experimentais dessa teoria ou unificação. É assim que fazemos em toda a física.

A notícia boa, para mim, um simples jovem que nunca teve uma grande vida em termos financeiros e passou por muitas dificuldades, é que não havia soluções. Entrei na faculdade de física na Universidade Católica de Brasília em 2005 em a mentalidade de unificar a quântica e a RG; obviamente que eu não tinha a menor ideia nem do motivo que as 2 não se bicavam, mas estava determinado a fazer meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) nessa área: mostrar como o universo nasceu como sendo aplicação do casamento da quântica com a RG. Um grande professor que tive e ainda tenho o prazer de ter contato até hoje, me orientou para estudar sobre multiverso da Teoria M (teoria que advém das teorias de Cordas e Supercordas; trabalharei futuramente sobre isso) e finalizei meu TCC sob o título Teoria M: uma possibilidade de unificação das leis da física, onde defendi o modelo de teoria M como unificadora da gravitação com a quântica e um modelo de multiverso onde 2 universos (o nosso e um outro) se chocam e produzem o Big Bang, a singularidade cósmica e tudo o que vemos.

Um detalhe importante sobre esse período, que vai de 2000 a 2011 (quando conclui a graduação em física), é que sempre continuei na igreja, dando aulas na EBD, fazendo cursos de teologia (conclui o Básico e o Médio em teologia pela Faculdade das Assembleias de Deus, FATAD, e ainda estou para concluir o Bacharel), devorando livros em bibliotecas e aproveitando a ferramenta internet. Em 2015, depois de alguns anos aprendendo com diversos professores e estudando por conta (trabalho para sustentar meu lar desde os 12 anos), entrei na Universidade de Brasília (UnB) para cursar o mestrado e já engatando no doutorado sem parar. Nesse período, estudei cosmologia, trabalhei com uma teoria chamada Teleparalelismo Equivalente à RG, que é um modelo teórico onde a unificação entre a gravitação e a quântica se dá de forma mais natural. Fui o primeiro a trabalhar com cosmologia quântica, utilizando esse modelo, na UnB. Acredito que esse trabalho deu contribuições que Einstein estava procurando quando faleceu em 1955 (ainda contarei essa história). Finalizei meu doutorado em dezembro de 2018 acreditando que um dos mecanismos que Deus utilizou para criar o universo foram algumas das equações que havia encontrado.

Observe que em momento algum deixei a igreja, fui confrontado que a Bíblia dizia isso e a ciência, aquilo, que virei ateu dentro da igreja (como alguns pensam que sou) ou que virei um liberal teológico. Nunca tive conflitos, crises de identidade, traumas ou choques ao ler o texto sagrado e estudar a teoria do Big Bang. Nunca torrei a cabeça ao ver o conflito entre as doutrinas cristãs e a nucleossíntese (formação das primeiras partículas e átomos quando o universo tinha apenas 3 minutos de vida). Durante os estudos em física estava focado em saber COMO, quais processos, Deus utilizou para criar o universo, as galáxias, as estrelas e os planetas. E fazia esses estudos com dedicação: como cito no podcast do BiboTalk o trabalho científico é um trabalho à Deus e derivar equações (minha formação é em física teórica) é uma forma de adoração ao Criador.

Em paralelo, principalmente depois do fim da faculdade em 2011, fui buscar, de forma mais sistemática, o que o texto bíblico falava sobre origens. Essa busca se concentrava em 3 grandes questões (os detalhes ficariam para depois das grandes respostas): criação do universo, criação do homem e dilúvio. É obvio que até hoje, nem eu e ninguém, tem as respostas detalhadas dos processos físicos dessas perguntas e não há detalhes minuciosos que respondem essas perguntas dentro da Bíblia. Minhas fontes para essa procura foram a Torah (o pentateuco) no original e literatura judaica (Onkelos, Maimônides e outros); os processos físicos já conhecia o suficiente.

Em 2015 conheci a ABC² quando o prof. Covolan e o Guilherme de Carvalho estiveram no DF apresentando o projeto. Dentro da ABC² tive acesso a uma vasta literatura teológica e, principalmente, que relacionava fé cristã e ciência. Novamente, devorei tudo o que pude; respondi as 3 grandes questões, principalmente com o autor John Walton e outras referências citadas por ele. Pude descansar da minha busca intensa por tantos anos. Hoje, continuo cristão (nunca deixei a fé nesses 28 anos de caminha cristã), faço meus estudos e resolvo algumas contas em cosmologia quântica, estou engajado como líder local e regional da ABC², além de estar no grupo temático de Física e no Núcleo de Ciências Naturais e Fé Cristã (todos da ABC²).

Claro que não resolvi todos os detalhes de integração entre ciência e fé cristã. Muitos processos ainda não encontrei: não sei (e ninguém sabe) os detalhes exatos da criação do universo, da formação (ou o que é) a imagem de Deus em nós e a entrada do pecado no mundo, por exemplo. Obviamente, tenho algumas linhas de pensamento que fui formando ao longo desses anos, mudo alguns detalhes na medida que estudo ou pesquiso; é natural. Mas, não tenho conflitos entre a fé que professo publicamente e meus cálculos cosmológicos: para mim, Deus criou todas as coisas através das leis físicas que Ele também fez. Ele se revela na natureza da forma que qualquer pessoa, seja cristão ou não, consegue ver e entender. Ele também se revela nas Escrituras de forma pessoal e relacional.

Agora, a leitura dessas duas revelações (Geral e Especial) ou desses dois livros (da Natureza e a Bíblia), vai depender da interpretação humana, ou seja, não há conflito entre ciência e fé cristã: podemos estar errados em nossa interpretação teológica e/ou interpretação científica. Finalizo com uma citação do padre belga (ou seja, um cristão) e um dos pais da teoria do Big Bang (ou seja, um cientista) dada ao New York Times em 19 de fevereiro de 1933:

Nada no meu trabalho, nada do que aprendi nos estudos de toda ciência ou religião mudou minha opinião. Não tenho conflitos a reconciliar. A ciência não mudou a minha fé na religião e a religião jamais contrariou as conclusões obtidas pelos métodos científicos.

George Lemaître

Só isso?! Sim! Mas, ficou em dúvida, quer perguntar algo, deixar algum comentário ou sugerir algum tema, deixe abaixo! Ficarei feliz em te responder, seja nos comentários ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Fiz mestrado e doutorado na área de cosmologia quântica. Minha dissertação e tese tem capítulo específico sobre física quântica. Também escrevi um livro, fruto da dissertação. O título da dissertação é Cosmologia quântica na gravidade teleparalela, o da tese é Discretização da energia no universo primordial e o do livro é Cosmologia quântica na gravidade teleparalela: Proposta de soluções;
  • Livro Astronomia e astrofísica, por S. O. Kepler e Maria de Fátima Saraiva. Este livro é disponibilizado no próprio site dos autores, que são professores da UFRGS. É um excelente material de consulta: http://astro.if.ufrgs.br/livro.pdf;
  • Livro Cientistas de batina: de Copérnico, pai do heliocentrismo, a Lemaître, pai do Big Bang, por Francesco Agnoli e Andrea Bartelloni, editora Ecclesiae;
  • Livro O teste da fé: os cientistas também creem, org. por Ruth Bancewicz, editora Ultimato;
  • Livro A Origem: quatro visões cristãs sobre criação, evolução e design inteligente, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Livro O mundo perdido de Adão e Eva: o debate sobre a origem da humanidade e a leitura de Gênesis, por John Walton e participação de N. T. Wright, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Livro O mundo perdido do dilúvio: teologia, mitologia e o debate sobre os dias que abalaram a Terra, por Tremper Longman III e John Walton, com contribuição de Stephen Moshier, editora Thomas Nelson Brasil.
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

Eu e meu telescópio Skywatcher 90×900 mm fazendo algumas observações astronômicas. Apenas apreciando o belíssimo céu noturno do DF.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *