Relação fé cristã e ciência: o mito que a igreja impediu o desenvolvimento da ciência na Idade Média

The Church thus set herself forth as the depository and arbiter of knowledge; she was ever ready to resort to the civil power to compel obedience to her decisions. She thus took a course, which determined her whole future career: she became a stumbling-block in the intellectual advancement of Europe for more than a thousand years.

History of the conflict between religion and science, John William Draper, p. 52

Na coluna de introdução à essa série dei algumas definições simples como modelo / teoria, hipótese, dentre outros. O assunto de hoje, continuando na linha relacional entre fé cristã e ciência, é mais histórico: na Idade Média houve perseguição aos cientistas, a igreja atrasou o desenvolvimento científico e intelectual? No imaginário social atualmente pensa-se que a igreja foi a grande pedra de tropeço do avanço intelectual durante mais de mil anos, inclusive condenando cientistas a morte por serem contra os ensinamentos bíblicos ao se utilizar da ciência. Meu foco hoje é desmistificar esse ensino completamente errado e não tem nada a ver com revisionismo histórico: é apenas a história em seus puros fatos.

Antes, um detalhe em uma palavra: mito. Aqui, no contexto que estou trabalhando, mito é uma história inventada. É completamente diferente da definição real de mito que é uma narrativa para dar sentido a uma cosmogonia, por exemplo. É importante destacar isso pois às vezes me refiro ao mito de criação de Gênesis com uma conotação completamente diferente do que estou utilizando aqui ao afirmar que é um mito ou é uma história inventada a ideia de perseguição da igreja a ciência.

Um detalhe que precisamos ter em mente ao falarmos de história é separar o que é narrativa e o que é documento histórico. Quando trabalhamos com fatos históricos precisamos ter, análogo a cosmologia, evidências. Na história as evidências estão em documentos da época ou relatos o mais antigo possível. A historiografia vai trabalhar com a questão de narrativa ou de como a história é contada. Por exemplo, se eu afirmo: “Galileu foi condenado e queimado na fogueira por dizer que o Sol é o centro do universo e que a Terra gira ao seu redor” estou escrevendo uma narrativa. Para que esta narrativa esteja correta, ou seja, que Galileu realmente foi condenado por defender o heliocentrismo, devo apresentar o documento de sua condenação ou narrativas da época / testemunhas oculares ou qualquer outro tipo de registro que apoie essa narrativa. Spoiler que desvendarei em outra coluna: Galileu não foi condenado por defender geocentrismo e muito menos, foi morto em fogueira por isso.

Portanto, a igreja se coloca como a depositária e a árbitra do conhecimento; estava sempre pronta para recorrer ao poder civil para obrigar obediência às suas decisões. Assim, ela tomou o caminho que determinou toda a sua futura carreira: ela se tornou a pedra de tropeço no avanço intelectual da Europa por mais de mil anos.

Tradução livre da citação inicial do livro History of the conflict between religion and science, John William Draper, p. 52

Draper (1811 – 1882) foi físico, químico, historiador de renome e um dos propagadores de uma das maiores fake news dos últimos tempos. O livro que ele publicou em 1875 contém histórias relatando o conflito entre religião e ciência. Mais especificamente, ele trata da relação entre o cristianismo e a ciência desde o séc. IV. Lendo apenas o sumário o leitor tem uma expectativa de que o cristianismo é um grande mal que surgiu na sociedade na fusão com o império romano. O conteúdo do livro, por exemplo na citação traduzida, tem uma direção de que o cristianismo foi a nuvem negra que escureceu o céu do progresso intelectual na idade Média (início na queda do império romano do Ocidente, 476, e fim na queda do império romano do Oriente, 1453). Até os termos Grande Noite de Mil Anos ou Idade das Trevas (esse é mais conhecido atualmente) foram cunhados na época do Iluminismo para descrever o que foi esse período negro na história humana.

Obviamente, meu objetivo não é refutar o livro do Draper. O livro editado por Ronald Numbers (citado na sugestão de leitura) traz vários mitos (histórias inventadas) tanto do Draper quanto do White (presidente da Universidade de Cornell e outro propagandista de fake news sobre conflito entre ciência e fé cristã) e destrincha-os em vários artigos com vários colaboradores. O capítulo ou no mito 2 do livro do Numbers é o que trata sobre essa falsa ideia de Grande Noite de Mil Anos que a igreja causou ao provocar o atraso da intelectualidade.

Um dos problemas do Draper é que o livro dele, History of the conflict between religion and Science, não tem citação alguma: nota de rodapé, foto de documento, apêndice, fonte ou qualquer outra coisa indicando de onde ele tirou toda a sua “historiografia”. O livro (que tenho em mãos) tem 373 páginas e nada de referêrencias bibliográficas ou fotografia: isso, por si só, já é um problema muito grande na hora de construir uma narrativa, mesmo que completamente enviesada.

Então, vamos a uma narrativa com base histórica. Para este fim estou aproveitando, além do livro do Numbers, o curso História, filosofia e direito do prof. Carlos Xavier (disponível no site da ConectHS Academy). Prof. Xavier é, dentre um extenso currículo, professor de Direito e, no material que ele disponibilizou (escrito, além das aulas) há uma extensa bibliografia; citá-la-ei nas sugestões de leitura.

Tomando justamente o período citado do Draper, séc. IV, temos que no início desse século a igreja deixa de ser perseguida (desde a morte de Cristo no séc. I) e se torna tolerada por Constantino. Até o fim do séc. IV ela se transforma em religião oficial do império romano. Nem vou comentar sobre a herança que os romanos têm para a civilização ocidental pois é desnecessário: o direito e a filosofia, em conjunto com a grega, são as bases. No ano 476 o império romano Ocidental (Roma) cai devido as invasões bárbaras e o império romano no Oriente (Constantinopla – Bizâncio) ainda permanece por quase mil anos.

A igreja, durante esse período entre 476 e 1453 sobreviveu a essas questões políticas. E mais do que isso: a cultura e a educação foram mantidas no meio dos bárbaros por meio da igreja. A evidência disso é o Trivium, as 3 artes liberais (gramática, lógica e retórica) que mantiveram o direito romano vivo. Apenas para ilustrar essa fusão dos bárbaros na sociedade ocidental: no ano 800 foi empossado como imperador Carlos Magno. O Sacro Império Romano-Germânico, nessa nomenclatura, tinha as fontes da igreja (sacro) e o renascimento do império romano fundido com os bárbaros (germânico). Além disso, há o direito visigótico: costumes dos bárbaros com o direito romano em uma só mescla.

Um outro fator interessante a se observar é que depois da queda do império romano no Oriente o imperador Justiniano, do império romano do Ocidente, fez uma compilação de todo o direito romano no Corpus Iuris Civilis. No séc. XII essa obra foi descoberta no Ocidente (Itália), dentro da universidade de Bolonha. Surgiu, então, a Escola dos Glosadores (comentaristas do Corpus Iuris Civilis) e a primeira faculdade de Direito. Tudo isso forte ligação com a igreja.

Depois de estudar o Trivium, os jovens estudavam o Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia) e completavam as 7 artes liberais ou a Escola de Artes. Concluído esses estudos, os estudantes optavam por finalizar os estudos em Direito, Medicina ou Teologia. O Trivium e o Quadrivium é o que chamamos de método de educação clássica que foi utilizada pela igreja durante “a idade das trevas”.

Ainda durante a “Grande Noite de Mil Anos” outro movimento de “retardo do desenvolvimento intelectual” (todas essas aspas são ironias) é o escolasticismo. Cito apenas um único nome, sem a necessidade de maiores comentários: Tomás de Aquino (1225 – 1274), considerado o maior teólogo da Idade Média e, até hoje, um dos maiores teólogos católicos de todos os tempos.

Um grande empreendimento realizado sob a assistência da igreja nesse “período de obscurantismo” é o nascimento das universidades. Isso mesmo: a universidade nasceu no final do séc. XI como um grande centro de estudo e sistematização de conhecimento, tanto teológico quanto científico. Lembre-se que o jovem, após estudar as 7 artes liberais, iria se tornar doutor em Teologia, Medicina ou Direito. A primeira universidade na Europa é a de Bolonha, 1088. Em 1500, como apresenta Michal Shank (autor do artigo do mito 2 no livro do Numbers) já se tinha 60 universidades. Fazendo contas baixas com média, sem nenhum parâmetro, são 14 universidades criadas por ano! Mas que tipo de “obscurantismo religioso” é esse que desenvolve a educação, que estava na mão da igreja neste período, através de universidades (centros de pesquisa, estudo e desenvolvimento de ciências)?

Um outro detalhe que não abordarei aqui é a perseguição de cientistas. Isso, por si só, dado o que vimos sobre a criação de universidades, não faz sentido. Tomando o exemplo do “presidiário” Roger Bacon: ficou preso por 2 anos ou 14 anos (história já começa a ficar estranha). O motivo da prisão não tem relação com os desenvolvimentos científicos que ele estava fazendo, fora que a primeira vez que aparece essa história é cerca de 80 anos após a sua morte. Shank até cita o livro Compendium of the study of theology, pág. 8, onde há essa desconfiança de que a sua prisão (se é que aconteceu) não tem motivação científica.

Para contrapor o exemplo “ruim” de Bacon (que nem tem embasamento histórico de perseguição religiosa): Nicolau de Oresme (1334 – 1382). Este bispo de Lisieux fez traduções, do original, das obras de Aristóteles e comentários as mesmas: Ética, Política e Economia. Publicou diversas obras sobre teologia, matemática, latim, monetarismo, astronomia e, na obra Sobre a comensurabilidade e incomensurabilidade dos movimentos celestes, fez aplicações da aritmética e geometria no movimento das esferas celestes (aqui ainda no sistema geocêntrico). E uma das suas grandes contribuições é a hipótese de que a Terra tem movimento de rotação, ou seja, gira em torno do seu próprio eixo.

Resumindo, a igreja não só não foi pedra de tropeço ao desenvolvimento intelectual como foi fundamental impulsionadora e fomentadora. Os intelectuais que apareceram na idade Média, como teólogos e outros pesquisadores de diversas áreas, estudaram e tiveram suas formações completadas nos centros de estudos e, posteriormente, nas universidades que foram criadas dentro e com a ajuda da igreja. A ideia de “idade das trevas” vai surgir no período da idade Moderna, no Iluminismo, onde faz uma tentativa de separar Deus do mundo humano e que vai culminar com algumas atrocidades e falsos desenvolvimentos, como a fatídica revolução francesa ou o racionalismo (onde a realidade é só o que existe, através de um reducionismo naturalista séculos depois).

Se a igreja medieval pretendia inibir a investigação sobre a natureza, deve ter sido completamente impotente, pois falhou completamente no alcance de tal objetivo.

Terra plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião, Ronald Numbers, pág. 46

Só isso?! Sim! Mas, ficou em dúvida, quer perguntar algo, deixar algum comentário ou sugerir algum tema, deixe abaixo! Ficarei feliz em te responder, seja nos comentários ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • Sobre conteúdo de direito sugiro o curso História, filosofia e direito do prof. Carlos Xavier. Mais informações no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=ej9g_h4dxkM. Também, sugiro todo o conteúdo do canal Direito Sem Juridiquês https://www.youtube.com/channel/UCRJooxeIg3O29IDIcPZPaCg e do canal Teodidatas https://www.youtube.com/channel/UCRtl0IOk02SBMxvCApLJF6w, ambos também do prof. Carlos Xavier. Nesses 2 canais há muita informação, de confiança, sobre a área do Direito (filosofia, história e aplicações) e a teologia (história, aplicação, manuscriptologia etc);
  • * O mito 2, que a igreja medieval impediu o avanço da ciência, está no livro Terra plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião organizado por Ronald Numbers, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • O exemplo, dentre vários outros, de Nicolau de Oresme está no livro Cientistas de batina: de Copérnico, pai do heliocentrismo, a Lemaître, pai do Big Bang por Francesco Agnoli e Andrea Bartelloni, editora Ecclesiae;
  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Um pouco mais de história sobre a relação entre ciência e fé cristã pode ser encontrada no livro Fundamentos do diálogo entre ciência e religião por Alister McGrath, editora Edições Loyola;
  • Outro livro muito bom sobre essa parte histórica é Ciência e religião organizado por Peter Harrison, editora Ideias & Letras;
  • Uma outra obra muito boa sobre esse tema é Os territórios da ciência e da religião por Peter Harrison, editora Ultimato em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • No site da ABC2 há muito material (artigos e vídeos no YouTube) sobre o relacionamento entre ciência e fé cristã: http://cristaosnaciencia.org.br/.
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

Irmão Guy Consolmagno, diretor do Vatican Observatory.
Fonte: https://www.nytimes.com/2017/12/22/world/europe/vatican-observatory-consolmagno.html

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