Relação ciência e fé cristã e Terra plana: o mito terraplanista na idade Média

In Christendom, the greater part of this long period was consumed in disputes respecting the nature of God, and in struggles for ecclesiastical power. The authority of the Fathers, and the prevailing belief that the Scriptures contain the sum of all knowledge, discouraged any investigation of Nature.

History of the conflict between religion and science, John William Draper, p. 157

This indifference continued until the close of the fifteenth century. Even then there was no scientific inducement. The inciting motives were altogether of a different kind. They originated in commercial rivalries, and the question of the shape of the earth was finally settled by three sailors, Columbus, De Gama, and, above all, by Ferdinand Magellan.

History of the conflict between religion and science, John William Draper, p. 159

A coluna de hoje será mais um crossover com duas séries que já estou trabalhando aqui no CosmoTeo: a série Ciência e fé cristã, onde já é abordado alguns aspectos históricos e atuais onde o mito do conflito entre ciência e cristianismo é desmanchado, com a série Terra plana onde comento vários pontos que essa ideia atual não tem fundamento científico ou teológico. A intersecção de hoje será sobre o mito de que a igreja medieval ensina sobre terraplanismo no período de “maior obscurantismo, na idade das trevas, na Grande Noite de Mil anos”. Aqui estarei referenciando a palavra mito no sentido de história inventada, conto da carochinha. Na coluna anterior tem alguns outros aspectos históricos relacionados ao texto de hoje, mas com outro foco.

Na cristandade, a maior parte desse longo período [entre séc. I e séc. XIV] foi consumida em disputas a respeito da natureza de Deus e em lutas por poder eclesiástico. A autoridade dos Pais e a crença predominante de que as Escrituras contêm a soma de todo o conhecimento desencorajando qualquer investigação da Natureza.

Tradução livre da citação inicial do livro History of the conflict between religion and science, John William Draper, p. 157

Essa indiferença continuou até o fim do século XV. Mesmo assim, não houve incentivo científico. Os motivos de incitação eram de um tipo complemtamente diferente. Eles se originaram em rivalidades comerciais e a questão da forma da terra foi finalmente resolvida por três navegadores: Colombo, da Gama e, acima de tudo, por Fernão de Magalhães.

Tradução livre da citação inicial do livro History of the conflict between religion and science, John William Draper, p. 159

Novamente, estou trazendo trechos do livro do John William Draper que escrevendo escreveu histórias onde defende ou “relata” um falso conflito que perdura por séculos. Também estou utilizando o livro editado por Ronald Numbers, Terra plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião, que traz vários artigos tratando de diversos mitos. Um deles é que os cristãos da idade Média, mais especificamente no período “das trevas” (meados do séc. V ao séc. XIV).

Se a cristandade era obscurantista e usava o seu poder para impor a sua autoridade anticientífica (como Draper destaca no mesmo livro na p. 52), então é natural pensar que no cerne da igreja a questão terraplanistas ou que a Bíblia ensina a Terra plana já estava colocada desde o seu início. Como ela se dizia detentora de todo o conhecimento e “desencorajando qualquer investigação da Natureza”, então o terraplanismo já era assunto fechado, encerrado e todo mundo aceitava. Certo? Não.

Isso é claramente visto quando vamos para a filosofia grega do período a.C., por exemplo com Aristóteles ou Eratóstones: estes não eram e nem defendiam a Terra plana. Aliás, o último é bem conhecido por ter feito, no séc. III a.C. a medida da circunferência da Terra (em uma outra coluna detalharei este experimento muito simples). Como vimos na coluna anterior a filosofia greco-romana e, claro, o direito romano, foram preservados até os nossos dias atuais. Comentaristas romanos, como Plínio, o Velho (23 a 79 d.C.), Pompônio Mela (séc. I) e Macróbio (séc. IV), utilizando da filosofia, concluíram que o formato da terra era esférico, assim como o universo. Lembre-se que até a época de Copérnico e Kepler a ideia do geocentrismo era a mais estabelecida.

Esquema do método de Eratóstenes para medir a circunferência da Terra.
Fonte: https://www.britannica.com/biography/Eratosthenes

Na patrística, ou seja, no período dos pais da igreja, posso citar (baseado no Numbers) os primeiros e, talvez, os maiores teólogos que influenciaram diretamente o pensamento cristão na idade Média: Agostinho (354 – 430), Jerônimo (que fez tradução da Bíblia para o latim; meados de 420) e Ambrósio (meados 420) não tinham dúvidas expressas sobre o formato esférico da Terra. Desse período, Lactâncio (início do séc. IV) é que discordava, mas por outras questões que não eram filosóficas (ele rejeitava todo o conhecimento externo e periférico a salvação).

Caindo já no meio da Idade Média entre os séculos XIII e XIV temos o grande teólogo Tomás de Aquino (1274), Roger Bacon (1294), Alberto Magno (1280), Michael Scot (1234) João Sacrobosco (1230) e Pierre d’Ailly (1350 – 1410): nenhum deles e suas influências negavam o formato da Terra como vemos hoje. Lembrando que Tomás de Aquino, principalmente na sua gigantesca obra Suma Teológica, tem fortes influências das obras aristotélicas. Bacon, o conhecido filósofo, na obra Opus Maius menciona que o mundo é redondo. Alberto Magno concordava com as ideias de Bacon. Michael Scot comparava a Terra como sendo um ovo ou uma cebola com camadas cercado de águas. Sacrabosco traz uma demonstração, na obra De sphera,da Terra como um globo. Por fim, Pierre d’Ailly, arcebispo de Cambraia (uma importante posição dentro da igreja), discute a esfericidade da Terra na obra Imago mundi.

Do período medieval Isidoro de Sevilha (570 – 636) defende a planaridade da Terra em um universo geocêntrico e esférico. Ou seja, para ele a Terra é plana, mas o Sol, o universo e todos os movimentos são esféricos (assim como é a cosmologia geocêntrica ptolomaica). Na enciclopédia filosófica que ele deixa escrita, as interpretações posteriores só podiam ser entendidas (dentro do contexto da obra) com uma Terra redonda, ou seja, a sua cosmologia é consistente em uma esfera terrestre. Também Cosme Indicopleustes, um monge bizantino do séc. VI, desse período medieval, constrói uma cosmologia baseada na leitura literal do texto bíblico, algo semelhante ao Criacionismo da Terra Jovem.

Com tudo isso, onde estão os ensinos dogmáticos e impostos da igreja sobre a planaridade da Terra? Talvez no imaginativo das pessoas que cunharam e seguem os termos “idade das trevas, obscurantismos, no atraso científico que a igreja impôs durante a Grande Noite de Mil Anos”. Mas Draper vai citar os grandes navegadores do séc. XV e XVI: Colombo, da Gama e Fernão de Magalhães. Só que não há documentos ou relatos históricos documentados sobre a crença, afirmação ou pesquisa que esses desbravadores tinham do terraplanismo. É óbvio que o imaginário popular e a exploração da Terra em territórios desconhecidos e que foram descobertos posteriormente (como a América, Brasil etc) levantavam todo o tipo de superstição e mito (no sentido de histórias inventadas para dar vazão a sentimentos). Hoje, pleno séc. XXI, vivemos esse tipo de imaginário ao citar o Triângulo das Bermudas, na América Central: um portal que leva para outras dimensões, para outros universos, para o céu, para o inferno, para Atlântida ou para qualquer outro local que a mente quiser inventar (lá é apenas um local normal como qualquer outro do planeta, mas que tem fenômenos naturais como tornados, alterações pontuais do campo magnético e muita história de tragédia).

Em resumo, a igreja não ensinava que a Terra era plana e, muito menos, mitigava a pesquisa geofísica (ou protogeofísica). O histórico teológico e filosófico da patrística e dos grandes intelectuais não indicavam qualquer movimento terraplanistas. Quando veio Copérnico, Kepler e Galileu, a discussão era mais de interpretação bíblica (exegese e hermenêutica) do que terraplanismo.

Apesar de toda a sua preocupação com a supervalorização da tradição científica / filosófica grega, Agostinho e outros como ele aplicaram a ciência natural greco-romana intensamente na interpretação bíblica. As ciências não devem ser amadas, mas usadas. Esta atitude com relação ao conhecimento científico cresceria na Idade Média até o período moderno.

Terra plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião, Ronald Numbers, pág. 36

Só isso?! Sim! Mas, ficou em dúvida, quer perguntar algo, deixar algum comentário ou sugerir algum tema, deixe abaixo! Ficarei feliz em te responder, seja nos comentários ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • O mito 3, que os cristãos medievais ensinavam que a Terra era plana, está no livro Terra plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião organizado por Ronald Numbers, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Um pouco mais de história sobre a relação entre ciência e fé cristã pode ser encontrada no livro Fundamentos do diálogo entre ciência e religião por Alister McGrath, editora Edições Loyola;
  • Outro livro muito bom sobre essa parte histórica é Ciência e religião organizado por Peter Harrison, editora Ideias & Letras;
  • Uma outra obra muito boa sobre esse tema é Os territórios da ciência e da religião por Peter Harrison, editora Ultimato em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • No site da ABC2 há muito material (artigos e vídeos no YouTube) sobre o relacionamento entre ciência e fé cristã: http://cristaosnaciencia.org.br/.
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *