Relação ciência e fé cristã: não sabemos como as coisas funcionam

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Gênesis 1:2

A coluna de hoje é mais reflexiva, assim como toda a série Relação Ciência e Fé Cristã. A ideia principal que quero te mostrar é que não sabemos tudo o que queremos saber quando falamos sobre a interação entre a nossa fé cristã e a ciência. Como você já conhece aqui da coluna CosmoTeo, sempre parto de que não há e nunca houve conflito entre ciência e fé cristã: isso já está mais do que demonstrado historicamente (por Ronald Numbers, por exemplo; vide nas sugestões bibliográficas no final) e na vida prática de diversos cientistas, vivos (estou incluso nesse pacote). Ou seja, parece que tudo está resolvido: não há conflito entre ciência e fé cristã, nunca houve conflito, então os cristãos cientistas têm respostas para tudo: os aparentes conflitos que o texto bíblico menciona estão todos resolvidos, só fazer pequenos ajustes teóricos e seguir a vida. Eu queria pensar assim, a vida seria muito mais simples. Infelizmente, sabemos muito menos do que gostaríamos de saber e aqui quero mostrar alguns dos milhões de problemas que temos, alguns com soluções “mais ou menos”, outros insolúveis com o que sabemos e, casos que nem saberemos se haverá resposta algum dia.

Indo do começo, para relembrar: teoria ou modelo teórico, como uso aqui no CosmoTeo, é uma construção argumentativa para explicar algum fenômeno. Em ciência é o mais alto grau de conhecimento sobre algo. Por exemplo, a teoria da evolução ou a teoria da relatividade geral são modelos teóricos explicativos de como a vida evolui e como a gravidade funciona. Dentro dessas teorias há leis (descrições) de funcionamento. Além de tudo isso, as teorias ou modelos explicam como funcionam os fenômenos, incorporam leis e hipóteses (“chutes”) a serem testados (podendo ser descartadas ou comprovadas) e tem evidências (“provas”, que são as hipóteses testadas e aprovadas).

Dentro da relação entre ciência e fé cristã a utilização de modelos é muito útil para termos uma visão geral e avaliar detalhes de certos eventos. Por exemplo, na passagem bíblica sobre o Sol e a Lua pararem na batalha entre Josué e os amorreus há uma narrativa de algo muito complicado, do ponto de vista científico, de ser explicado. Nós não observamos o Sol e a Lua pararem os seus movimentos ou, melhor dizendo, a Terra e a Lua pararem os seus movimentos de rotação e translação. Com isso, temos um problema: como entender a passagem de Josué 10 levando em consideração o texto bíblico, Palavra de Deus, e a ciência, que sabemos que não permite tais fenômenos astronômicos? A explicação para isso é um modelo teórico; escrevi uma coluna específica sobre isso e você pode conferir todos os detalhes e a proposta.

Só que a nossa boa vida de explicar tudo não é nada fácil. O modelo que apresentei está correto, foi exatamente aquilo que aconteceu? Não sei. Sim, essa é a resposta correta: não sei. Por outro lado, há uma alta probabilidade de tal evento ter sido o que apresentei porque outras explicações concorrentes (modelos teóricos como: Terra e Lua pararem o seu movimento, universo inteiro parar o movimento e só a Terra continuar se movimentando etc) são esdrúxulas, quebram a literatura bíblica, colocam a ciência em conflito com as Escrituras, apresentam fenômenos físicos que jamais aconteceriam ou outras características absurdas. Mas, há um ponto: Deus não poderia ter feito um fenômeno esdrúxulo na batalha de Josué contra os amorreus? Deus não poderia ter feito um “milagre, um evento sobrenatural” etc? Sim, claro: Ele poderia ter feito qualquer coisa, do jeito que Ele quisesse fazer e não importa o que eu acho. Mas, acredito que Ele não faria algo desse tipo e explicarei os motivos.

Como cristão e criacionista (criacionista: pessoa que acredita que Deus criou todas as coisas. Ponto. Nada mais e nada menos do que isso), Deus criou a natureza e se revelou a nós, homens, através de 2 canais. Um deles é a revelação especial, que é a Sua Palavra: inerrante e infalível. Nela, o Criador se coloca de forma pessoal e relacional. O outro é a revelação geral: a natureza demonstra que há um criador e sustentador de tudo. E isso não se retira da ciência ou das leis físicas: nós, cientistas, apenas descrevemos como as coisas funcionam e observamos os padrões que ressoam com a nossa razão. Em cima desses 2 canais observo que há uma sequência lógica e que não é quebrada. Posso até não entender como ela funciona ou não ter todos os dados para interpreta-la; isso já um problema da minha natureza, de limitação humana.

Vamos observar a sequência lógica apresentada na revelação especial. Como conhecemos das Escrituras, ela é sequencial, enumerada e progressiva. Essas 3 palavras, que são diferentes em suas definições, são essenciais para vermos o desenrolar da história, como um todo, que acontece na Bíblia: Deus se demonstra como Criador, o pecado entra através da queda do homem; este, por sua vez, tinha uma relação harmoniosa. Depois da queda, há uma separação completa entre o Criador e o homem; esta separação destrói toda a vida espiritual do homem. Mesmo assim, Deus faz diversos pactos com o homem (Noé, Abraão, Moisés etc) com a finalidade de reatar ou refazer a relação que havia antes da queda. E esse laço é finalmente refeito em Cristo, com o seu sacrifício perfeito e sua ressurreição. Mas, o quadro completo se fechará em um futuro escatológico (pleonasmo intencional) onde estaremos juntos com Cristo na Nova Jerusalém por toda a eternidade.

Observe que essa história da salvação ou história da humanidade é sequencial, enumerada e progressiva. Não há eventos posteriores vindo antes do tempo que eles deveriam acontecer. E a revelação especial de Deus é construída dentro do tempo, dentro da cultura, dentro da mentalidade de cada pessoa em cada região e em cada época.

Agora, observe a sequência lógica na revelação geral. Nós conhecemos, com um bom grau de estudos, como o universo nasceu (ainda há muita briga nesse instante), como ele se desenvolve, como as galáxias, estrelas e planetas são formados e como a vida se desenvolveu aqui na Terra (no momento que escrevo este texto, não temos evidências de vida em outro lugar além daqui). Observe os termos em negrito anteriores: como. Isso remete a processos físicos; e isso não está no texto bíblico porque a Bíblia não tem por objetivo demonstrar o funcionamento qualquer fenômeno físico. Utilizando a ciência, entendemos esses “comos” acontecem. Por outro lado, utilizando a cosmovisão cristã e voltando lá no início do universo, em um “momento” que não existia coisa alguma (espaço, tempo e matéria), podemos inferir que alguém (ou alguma coisa) atemporal (tempo não existia), fora do espaço (não existia espaço) e imaterial (matéria não existia) criou o universo. Melhor: escreveu, antes do universo nascer, as leis físicas que regeriam o nascimento do universo e este alguém (ou alguma coisa) fez com que essas leis + os componentes “materiais”, “temporais” e “espaciais”, surgissem de tal forma que temos o que temos sobre a natureza. É claro, falando para meus amigos físicos, que estou descartando, de antemão, multiversos quaisquer; se não há nenhuma indicação indireta de existência desse tipo de modelo cosmológico, então estou descartando a priori.

Tudo isso que descrevi anteriormente é escopo da revelação geral: ela demonstra, dentro da cosmovisão cristã, que Deus existe e que criou todas as coisas, além de se revelar como criador. Mas, a revelação geral não mostra as relações ou as intenções de salvação, escatologia ou qualquer outra intencionalidade pessoal na natureza. É claro que o criador (de forma geral e não apenas o nosso Deus) tinha a intenção de criar tudo o que criou porque ele escreveu as leis físicas exatamente como estão escritas e, algumas delas, estamos descobrindo pela ciência. Quando levamos essa ideia para dentro do cristianismo (que é o nosso caso) as coisas ficam mais claras olhando para dentro da revelação geral: Deus se revela como criador para todos os homens através de Sua graça comum. E isso, como cristão, é o ápice da demonstração da criação: vemos Deus em tudo (não é panteísmo ou panenteísmo) de forma clara, agindo exatamente como Ele quer.

Tendo tudo isso em mente, as revelações geral e especial, e olhando para trás, observe que Deus fez o que fez porque Ele quis fazer o que foi feito exatamente como está feito. E, dado a sequência como observamos hoje, extrapolando para outros momentos da história, vendo os registros históricos, chegamos à conclusão, por indução, de que Deus não quebra as leis que Ele mesmo criou. Ele poderia quebrar, poderia fazer as coisas completamente diferente do que achamos que Ele fez etc, mas não seria lógico ou racional, para nós, se fosse diferente. O que quero dizer com isso é que, dado a revelação geral, onde Ele se revela para todo e qualquer ser humano de forma geral, não faz sentido Ele fazer algo (dentro da revelação geral) que fosse impossível de ser reconhecido por qualquer ser humano. Vamos de um exemplo para ficar mais claro.

Há duas séries aqui no CosmoTeo onde trato sobre as origens tendo como perspectiva o texto bíblico e a cosmologia. Como sabemos muito bem da física, o universo tem 14 bilhões de anos (estou arredondando, para cima, a idade de 13,87 bilhões de anos). Isso significa que o texto de Gn não fala sobre a origem do universo porque não há cosmologia em Gn. Mas, vamos pensar diferente: suponha que Deus tenha criado o universo exatamente como está descrito, de forma literal e ao pé da letra, em Gn. Ou seja, o universo tem apenas 6 mil anos, tudo surgiu do nada, instantaneamente, de forma envelhecida (algo muito semelhante ao que defendem os criacionistas da Terra Jovem).

O que esse tipo de pensamento (criação do universo há 6 mil anos, de forma pronta, instantânea e envelhecida) poderia diferir, em termos de poder de Deus, do que é relatado pela cosmologia? Absolutamente, nada! Não importa, em termos divinos, Deus criar o mundo há 14 bilhões de anos ou 6 mil anos. Se Ele usou processos instantâneos ou evolutivos cosmológicos, nada disso diminui a Sua essência, o Seu poder ou a Sua vontade. E mais: Ele não tem a menor obrigação, conosco, de dar explicações do motivo de ter feito a coisa há 6 mil ou há 14 bilhões de anos.

Se isso é irrelevante para a Sua natureza, onde está o ponto de discordância? Primeiramente, a discordância é em nível secundário, ou seja, não interfere na nossa salvação; apenas desejamos ler a realidade de uma forma mais global em uma conjunção de narrativas bíblica e científica. Com isso em mente, a discordância está na questão da forma como Deus age: se Ele fez tudo o que vemos, daqui para trás na história, em uma sequência lógica, fazendo sentido a consonância da nossa razão com os padrões que observamos na natureza, então não vemos quebra de leis ou “ações sobrenaturais” (no sentido de coisas fora da natureza feita por Ele); se entendemos ou não, é outro departamento.

Com toda essa digressão em mente, está mais claro do que nunca que não conseguimos responder a todas as questões que ponteiam a ciência e a fé cristã. É claro que vamos continuar pesquisando, oferecendo modelos teóricos e derrubando outros; isso é intrínseco à nós. Se esses modelos são as explicações completas e inerrantes sobre tal fenômeno, é outra história.

Temos milhares de problemas onde são oferecidos vários modelos teóricos. O clássico exemplo, que ainda explorarei em detalhes na série As Origens do Homem é a narrativa sobre Adão e Eva: como explicar aquele texto de Gn 1 e 2, tendo em mente a teoria científica da evolução e a literatura bíblica da Palavra de Deus? É um evento complicado e há diversos modelos que tentam, em boa medida, explicar. Mas, qual dentre esses vários modelos, é o que o escritor tinha em mente ao narrar Adão e Eva? Talvez jamais saberemos. Os modelos propostos são muito bons, não quebram nenhuma parte científica e nem bíblica, mas escolher 1 entre eles é uma questão, exatamente assim, pessoal. O importante, nesse tipo de escolha, é não se agarrar a ela como “verdade absoluta” (talvez nunca teremos evidências materiais exatas para decidir o modelo), chamar outras pessoas de outros modelos igualmente válidos de hereges e nem colocar a nossa salvação como dependente de entender (ou não) a história histórica ou mito-poética de Adão e Eva.

No caso de Adão e Eva, como veremos na série As Origens do Homem, há bons modelos teóricos explicativos. Outros exemplos que tem bons modelos é com relação à queda, travessia do Mar Vermelho e do rio Jordão, batalha de Josué e dos amorreus, dentre outros. Por outro lado, temos milhares de outros eventos narrados no texto bíblico que são difíceis, pelo menos para os meus pensamentos, de explicar: ressurreição de Cristo (há modelos, mas não os acho muito bons), diversos milagres do NT e visões proféticas (tanto do AT quanto do NT).

E o que fazer nesses casos complicados? Aquilo que sempre se faz quando vai estudar algo que não tem solução: pesquisar. Quando fui fazer mestrado e doutorado em física, meu orientador me propôs alguns problemas que, até aquele momento, não havia solução. Então, o que fizemos foi pegar equações básicas, desenvolve-las com algumas condições de contorno e ver as soluções. Essas soluções, a gente interpretava dentro do arcabouço teórico. Se fazia sentido, continuávamos e melhorávamos. Se não fazia sentido, tinha algum erro ou ia contra alguma base física, descartávamos e continuávamos estudando.

É assim que se faz pesquisa e é assim que devemos tratar a relação entre ciência e fé cristã no instante que queremos explicar algum texto complicado. A explicação faz sentido, quebra alguma lei física, detona alguma doutrina fundamental do cristianismo? Sim; então jogue fora. Não; então continue e refine mais esse modelo. Não consigo encontrar explicação para tal fenômeno, o que fazer? Como não sabemos se tem ou não tem solução, o nosso papel é continuar estudando a Palavra de Deus e a Sua criação.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

João 1:1

Ficou em dúvida, quer perguntar algo ou fazer alguma crítica / sugestão? Deixe nos comentários abaixo e terei o prazer em te responder aqui ou em algum artigo específico.

Sugestão de leitura

  • O melhor material, em português, no assunto entre ciência e fé cristã é o Dicionário de cristianismo e ciência, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Um pouco mais de história sobre a relação entre ciência e fé cristã pode ser encontrada no livro Fundamentos do diálogo entre ciência e religião por Alister McGrath, editora Edições Loyola;
  • Outro livro muito bom sobre essa parte histórica é Ciência e religião organizado por Peter Harrison, editora Ideias & Letras;
  • Uma outra obra muito boa sobre esse tema é Os territórios da ciência e da religião por Peter Harrison, editora Ultimato em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • O teste da fé: os cientistas também creem, org. por Ruth Bancewicz, editora Ultimato;
  • A Origem: quatro visões cristãs sobre criação, evolução e design inteligente, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • Outro excelente livro é a coleção de artigos do Terra plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião, editora Thomas Nelson Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência;
  • No site da ABC² há muito material (artigos e vídeos no YouTube) sobre o relacionamento entre ciência e fé cristã: http://cristaosnaciencia.org.br/.
Dr. Alexandre Fernandes

Até a próxima!

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